segunda-feira, 30 de maio de 2011

Oração de São Francisco para nossos dias! por Beatriz Maestri

Senhor, fazei-nos instrumentos de missão!

Onde encontrarmos pessoas encurvadas, que as ajudemos a levantar-se.

Onde a injustiça teima em reinar,

que levemos a justiça transformadora da sociedade.

Onde a desigualdade machuca e discrimina pessoas e povos,

que saibamos incluir, respeitar,

animar e valorizar a vida em todas as suas expressões.

Onde os poderosos teimam em dominar a esperança dos pobres,

que levemos organização e conscientização.

Onde as mulheres são oprimidas e exploradas,

busquemos a igual participação e sua valorização.

Onde a natureza estiver sendo depredada,

que sejamos promotores/as da irmandade universal,

semeando o cuidado e o respeito com toda criação.

Onde a violência fere tantas pessoas inocentes,

que levemos a tua Paz!

Ó Deus, Fonte da Vida e do Amor,

fortalece nosso compromisso com os mais pobres e excluídos!

Recria e fortalece nosso sonho por uma nova economia,

e que nossas lutas contribuam com a economia solidária,

respeitadora da vida em todas as suas formas

e na gestação de novas relações.

“Levanta-nos” de nossas incertezas

para mergulhar na realidade com ousadia e coragem!

Envia-nos, com tua força,

para sermos anunciadoras/es da esperança e da solidariedade!

Que nosso coração, sempre encantado por Jesus Cristo

e comprometido com a construção de seu Reino de justiça e fraternidade,

prossiga vibrante, na partilha e no abraço universal!

(Ir.Beatriz Maestri)

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Cântico do Irmão Sol ou das Criaturas

(Quase cego, sozinho numa cabana de palha, em estado febril e atormentado pelos ratos, São Francisco deixou para a humanidade este canto de amor ao Pai de toda a Criação.

A penúltima estrofe, que exalta o perdão e a paz, foi composta em Julho de 1226 no palácio episcopal de Assis, para pôr fim a uma desavença entre o Bispo e o Prefeito da cidade. Estes poucos versos bastaram para impedir a guerra civil.
A última estrofe, que acolhe a morte, foi composta no começo de Outubro de 1226).

Altíssimo, onipotente e bom Deus,
Teus são o louvor, a glória, a honra
e toda benção.

Só a Ti, Altíssimo, são devidos,
e homem algum é digno
de Te mencionar.

Louvado sejas, meu Senhor,
com todas as Tuas criaturas.
Especialmente o irmão Sol,
que clareia o dia
e com sua luz nos ilumina.

Ele é belo e radiante,
com grande esplendor
de Ti, Altíssimo é a imagem.

Louvado sejas meu senhor,
pela irmã Lua e as Estrelas,
que no céu formastes claras,
preciosas e belas.

Louvado sejas meu Senhor,
pelo irmão Vento,
pelo ar ou neblina,
ou sereno e de todo tempo
pelo qual as Tuas criaturas dais sustento.

Louvado sejas meu Senhor,
pela irmã Água,
que é muito útil e humilde
e preciosa e casta.

Louvado sejas meu Senhor,
pelo irmão Fogo,
pelo qual iluminas a noite,
e ele é belo e jucundo
e vigoroso e forte.

Louvado sejas meu Senhor,
pela nossa irmã a mãe Terra,
que nos sustenta e nos governa,
e produz frutos diversos,
e coloridas flores e ervas.

Louvado sejas meu Senhor,
pelos que perdoam por teu amor
e suportam enfermidades e tribulações.

Bem aventurados os que sustentam a paz,
que por Ti, Altíssimo serão coroados.

Louvado sejas meu Senhor,
pela nossa irmã a morte corporal,
da qual homem algum pode escapar.

Ai dos que morrerem em pecado mortal!
Felizes os que ela achar
conforme à Tua Santíssima vontade,
porque a segunda morte não lhes fará mal.

Louvai e bendizei a meu Senhor,
e daí lhes graças
e servi-O com grande humildade.

Amém

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Inclusão e Coesão sociais



Que a questão da pobreza e da miséria se tenha tornado um tema básico da agenda nacional e objeto de discussão na opinião pública significa um passo muito importante na construção de um mundo alternativo. Recentemente o presidente do IPEA, Márcio Pochmann, nos ofereceu um ensaio (No livro: Opção pelos pobres no século XXI, Paulinas, 2011) sobre a questão com o título: “Pobreza em transformação no Brasil”, que começa com uma afirmação certamente surpreendente para muitos: “O Brasil vem registrando indicadores inegáveis de redução de pobreza absoluta e relativa. Pode, mesmo, chegar a superar a pobreza extrema na segunda metade da segunda década do século XXI, o que se constituirá em algo de grande relevância para um país historicamente demarcado por profunda exclusão social”.


Para ele, este processo se vincula diretamente ao esforço de reestruturação das políticas públicas provocado pela Constituição Federal de 1988 que re-configurou a estrutura vertical dos grandes eixos de intervenção do Estado no campo da proteção e do desenvolvimento social (saúde, educação, assistência e previdência, infra-estrutura social, trabalho entre outros). A distinção entre pobreza absoluta e pobreza relativa é fundamental para podermos avaliar o que vem ocorrendo no Brasil e percebermos que desafios temos no momento presente. Pobreza absoluta é a condição social sem o atendimento básico às necessidades elementares da existência humana. No nosso caso, trata-se do segmento da população com rendimento per capita até meio salário mínimo mensal. Nas últimas quatro décadas, a taxa de pobreza absoluta caiu no Brasil em 61% e deixou de representar 68% da população em 1978 para representar 26,5% em 2008. Esta queda por outro lado revela com clareza a enorme diferença entre as regiões de nosso país. Assim, enquanto ela foi de 76,6% no Sul, no Nordeste foi apenas de 46,4¨%. Numa palavra, a pobreza se reduziu mais justamente nas regiões mais ricas o que mostra a profunda desigualdade regional.


Como avaliar o que está ocorrendo?Para isto é indispensável o conceito de “pobreza relativa” que significa o quanto se é pobre relativamente ao padrão de vida dos ricos. Nesta perspectiva se revela que a redução da pobreza no Brasil tem sido muito mais forte do que a diminuição da desigualdade de renda o que mostra que o combate à pobreza é muito menos complexo do que o enfretamento da desigualdade de renda. Mantendo os mesmos ritmos o Brasil tem condições de chegar em 2016 a indicadores sociais muito próximos aos países desenvolvidos no combate à pobreza o que se deve certamente ao aumento expressivo do gasto social (22% do PIB em 2005 contra 13, 3% em 1985), mas não se pode dizer o mesmo no que diz respeito à desigualdade, pois houve até aumento da pobreza relativa. A tese de M. Pochmann é fundamental para entender nossos desafios: a inclusão pelo consumo de milhões de pessoas nos anos recentes tem sem dúvida grandes méritos que devem de ser reconhecidos, mas é insuficiente para garantir a coesão de nossa sociedade. Um elemento básico de enfretamento da questão da desigualdade é a mudança do padrão tributário que permanece intocável entre nós.


Texto de Manfredo de Oliveira
Filósofo,Teólogo,Prof.UFC

Curso Realidade Brasileira




Casa : a dimensão mística do habitar


“Habitarei na casa do Senhor” (Sl. 23)
“Na casa de meu Pai há muitas moradas” (Jo. 14,2)

É da nossa condição humana buscar um espaço, um lugar hospitaleiro e acolhedor, o lugar onde nos situamos no mundo e onde podemos ser encontrados.
São muitos os lugares por onde transitamos, mas o mais importante deles é a nossa casa.

A casa é mais do que uma realidade física, feita de quatro paredes, portas, janelas e telhados.
Casa é uma experiência existencial primitiva, ligada ao que há de mais precioso na vida humana, que é a relação afetiva entre aqueles que a habitam e com aqueles que nela são acolhidos.
Casa, espaço do mundo que nós escolhemos, preparamos, organizamos, adornamos e fazemos a moradia a partir da qual contemplamos a Terra e o Céu. Por isso ela é reveladora de nossa identidade. “Dize-me como é tua casa e te direi quem és”. Ela é o espelho mais honesto dos nossos hábitos, o abrigo dos nossos medos, a nossa fotografia. É por este motivo, talvez, que muitos fogem da própria casa: não querem enxergar a si mesmos.

Quando estamos confusos e desorganizados, nossa casa invariavelmente reflete esse estado de espírito sob alguma forma de desleixo ou desordem. Quando nos abrimos à intuição artística e criativa, a casa e o que realizamos nela se tornam um reflexo vivo de nosso interior, com seus élans e sonhos, seus desejos e perplexidades, com seus anseios de ordem, beleza, harmonia, inteireza.

A casa como espaço arquitetônico e as múltiplas atividades que acontecem nela e em torno dela não deixam de ser uma expressão simbólico-sacramental daquilo que somos e do modo como somos no mundo. A casa é uma extensão de seus moradores. Através dela, estes se revelam e se auto-constroem.
A casa nos ajuda a fincar raízes neste mundo e em nós mesmos; ela é lugar de referencia e nos fornece orientação; ela anima nossa espera e alimenta o encontro; conserva nossa história, acolhe e guarda na memória as nossas alegrias e as nossas tristezas, as nossas conquistas e os nossos fracassos...

Estar em casa é estar no seu espaço, na sua intimidade, no lugar de plena liberdade e espontaneidade. Ela é o cenário principal do enredo e dos episódios de nossa vida; é o lugar seguro que nos possibilita repouso e revigoramento afetivo, bem-estar e proteção... Casa representa segurança e refúgio das amea-ças que vêm de fora; ela nos oferece um espaço estabilizador e nutridor, suscitando vigor e saúde inte-gral. Sem ela facilmente perdemos a calma e o equilíbrio, tornando-nos presas fáceis da agitação, da insatisfação, do medo, do consumismo descontrolado, da impulsividade e da impaciência.
Em meio à dispersão dos múltiplos relacionamentos e das mais variadas demandas que rege a vida atual-mente, é de vital importância esse lugar estável de onde podemos partir e para onde podemos voltar ao longo de nossas incessantes e estressantes jornadas.
Negar casa a alguém é negar-lhe o útero que protege e acolhe, é tirar-lhe a segurança necessária para viver, é fazê-lo um errante sem pátria e sem rumo. Perder a casa é se perder a si mesmo.


Todas estas dimensões fazem a casa humana. Ela se apresenta como instância encantadoramente humana e acolhedora de nós mesmos, sendo fonte de auto-conhecimento e crescimento pessoal.
A casa é também a instância configuradora de nossa experiência de fé.
Diante de tantos ruídos e imagens que nos violentam, a casa torna-se o lugar da escuta, do silêncio, da interioridade e da comunhão com o Transcendente, através de mediações simples como uma escuta musical atenta, uma boa leitura ou o exercício diário da oração.
Nesse sentido a casa torna-se Templo do Espírito, pois ela nos ajuda a fazer contato com nossas “mora-das interiores”: lugar de intimidade com Deus, espaço de contemplação, ambiente de discernimento e construção de decisões. Nesse sentido, a casa já é antecipação da nossa morada eterna, no Paraiso.
O lugar cotidiano da casa se converte na epifania do divino, no lugar concreto do encontro com Aquele que faz de nossa casa, Sua morada.
Nossas moradas provisórias nos revelam que todos somos peregrinos em busca da morada definitiva; nosso coração anseia pelas moradas eternas: o coração do Pai, onde cabem todos.

Textos bíblicos: Jo. 14,1-12 Lc. 19,1-10

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Além dos manicônios - 18 maio - Dia Nacional da Luta Antimanicomial

Imagem Publicada - uma foto colorida, com uma jovem haitiana, ela olha para a câmera, com sua mão esquerda sendo levada à boca, me parecendo um silenciamento imposto, que utilizo para lembrar as milhares de crianças e adolescentes que foram e estão esquecidas no Haiti, pós-terremoto e cólera, que, com certeza, estão precisando de muitos cuidados, inclusive de Saúde Mental, mas certamente não precisam de maiores exclusões ou marginalizações do que o já vivido em suas peles negras durante os tantos anos de isolamento ou miséria a que seu povo foi submetido. Talvez ela se pareça com a personagem B.H do meu texto abaixo, ainda quando era jovem e sonhava com a sua liberdade. (foto da Internet)

O dia 18 de maio precisa ser, também, considerado um data para não esquecer. Além de ser um dia para combater as sutis tentativas de retomada do modelo nosocomial, principalmente quando as mídias insufladas por crimes cometidos por ''loucos'', ''maníacos'' ou '' paranóicos'' como o jovem Wellington aparecem ou explodem pedindo o retrocesso histórico.

Mas o que não podemos esquecer? Não podemos esquecer a maioria dos que ainda estão sob tratamentos psiquiátricos segregantes, os que permanecem na Casa dos Mortos, os que compõem um imensa maioria dos que necessitam de cuidados psiquiátricos por vivenciarem os mesmos campos de exclusão que geraram um dos maiores manicômios do Brasil: o Hospital do Juqueri, em Franco da Rocha.



Foi lá que, há alguns anos atrás, como preceptor de um grupo de jovens residentes em psiquiatria, em visitação à moda de Freinet, tive contato com um dos mais importantes documentos de minha carreira. Eu vi o documento de internação da primeira paciente deste manicômio. Em 08 de novembro de 1885 era internada, no Hospício de Juquery, São Paulo, uma mulher, preta, denominada B.H, solteira, cozinheira, católica, aos 50(?) anos, com nacionalidade Brazil(eira), e em cujo registro está escrito que a sua ''revisão'' foi realizada em janeiro de 1910.

Esta temporalidade confirmada, na virada de século, com 25 anos sem nenhuma forma de cuidado ou real diagnóstico, lavrou o testemunho de seu sofrimento ou sua exclusão. Resta dizer que ela faleceu por lá mesmo, provavelmente não muitos anos depois deste tempo de reclusão. Porém em minha memória não deixarei nunca sua história desaparecer. E aos que me lêem solicito sua memorização crítica e desalienante.
Esta mulher negra fazia parte, à época de um grupo de cidadãos e cidadãs que precisavam sair do caminho do progresso paulistano. Eram os que mais incomodavam ao Império e sua biopolítica de higienização. Este grupo social de excluídos passou a ser um ''fardo social'', bem como um ''perigo'' também para a República. Eram os que foram lançados na marginalidade, nos cortiços e nas nova senzalas, de um espaço urbano.
Cidades em expansão, como São Paulo, que tentavam conciliar ex-escravos, migrantes e outros habitantes de um país neorrepublicano. E, assim nasce em 1885 (não em 1895 como está na Wikipédia) o Asilo de Alienados do Juquery, no mesmo tempo em que a negra B.H entra por seus portões para nunca mais sair.
A Psiquiatria nosocomial e asilar, é um dinossauro, nasceu no Brasil com um decreto imperial em 1841. O imperador Pedro II, pressionado pelos que criticavam o "abandono” em que se encontravam os alienados, incluindo-se aí os proxenetas, "débeis mentais e portadores de taras", assim chamados os loucos da época, determinou a criação de um hospício voltado ao tratamento destes alienados.

Este fato coincidirá com o surgimento da psiquiatria no país. Junto com ela um movimento de higienização social, com seus ranços históricos ligados à eugenia, quando: "os negros e os leprosos foram identificados como portadores de perigo em potencial, e foi providenciado o seu afastamento das principais vias públicas..."

A inauguração de dos primeiros hospícios brasileiros, só ocorrerá onze anos depois do decreto imperial. Institucionalizou-se a segregação, o hospital foi o melhor território panóptico para o isolamento biopolítico destas diferentes formas de excluídos e despossuídos.

Os manicômios e as prisões andaram, então de braços dados, circulando à caça dos desviantes, nas vielas, nos bairros, favelas, entre os artistas, os boêmios, os proletários e os alcoolistas. Os tempos imperiais lusitano-brasileiros prenunciavam o que hoje vivemos com o novo modelo de Império hipercapitalista, só que agora aperfeiçoamos as técnicas em Guantanamo ou outros ''gulags'' pós-modernistas.
Portanto, mesmo com todas as críticas que se façam à Reforma Psiquiátrica, aos equipamentos substitutivos, que vão muito além dos Centros de Atenção Psicossocial (Caps), ou às políticas para resolutividade dos impasses em Álcool e outras drogas, temos de reafirmar nossos compromissos com uma mudança radical de paradigmas. A história do higienistas, dos fisicalistas e dos chamados organicistas atravessam e transversalizam a Psiquiatria brasileira. E, apesar dos muitos avanços científicos, como os gerados pelas Neurociências e novas tecnologias, muitos ainda se prendem a um modelo biomédico que só vê corpos-máquinas, quiçá ainda apenas Vidas Nuas, no cuidado exigido pelos transtornos mentais.

O mandamento esquecido






Nas tradições espirituais, um mandamento de Deus não significa ordem arbitrária ou lei impositiva e sim uma revelação amorosa de um Pai de amor maternal que nos dá critérios de vida e ação e inscreve esta orientação no coração das pessoas para sermos felizes e realizarmos melhor nossa missão. Nas mais diversas religiões, um dos mandamentos é o do amor e cuidado com a terra, a água e todos os seres vivos. Hoje, há quem expresse este mandamento como se fosse o prolongamento do mandamento bíblico que nos manda amar o próximo (Lv 19): "Ame a terra como a si mesmo/a”. Embora esquecido por muito tempo, este cuidado é agora retomado pelo lema da Campanha da Fraternidade 2011, proposta pelos bispos católicos do Brasil. O lema é tirado da carta de Paulo aos romanos: "A criação geme em dores de parto” (Rm 8, 22). Por isso, a CNBB convida todas as pessoas de boa vontade a se engajarem em uma nova Campanha da Fraternidade sobre o cuidado com a Vida no Planeta.

O cuidado com a vida no planeta não pode ser apenas assunto técnico ou de competência dos governos. Deve ter como base uma atitude de amor e de espiritualidade para com a natureza, que todas as religiões acreditam ter sido criada e sustentada pelo Espírito Divino. Alguns cientistas acusaram a cultura judaico-cristã de ter provocado a destruição da natureza que agora ameaça a própria sobrevivência da vida no planeta. De fato, a Bíblia, interpretada ao pé da letra, dá ao ser humano o direito de explorar a terra e dominá-la (Gn 1, 28). É preciso compreender o contexto histórico em que os textos bíblicos foram escritos e reinterpretá-los em um sentido novo. De acordo com a revelação bíblica, a missão do ser humano é cuidar da terra e de todos os outros seres vivos com o mesmo amor com o qual Deus cuida de nós. Nesta nova perspectiva, somos todos convidados a contemplar a Deus presente e atuante na natureza como se manifesta na história.

Há alguns anos, em um programa de televisão, um pregador neopentecostal deu um chute em uma imagem de Nossa Senhora Aparecida. Com razão, católicos protestaram contra o desrespeito à sensibilidade religiosa de outros irmãos. Houve manifestações públicas de desagravo à imagem da santa. Entretanto, a cada dia, apenas para lucrar mais, o sistema capitalista destrói e desrespeita a imagem de Deus presente nos elementos do universo. Quando uma floresta é queimada ou cortada, quando um rio é desviado ou represado apenas para gerar energia, sem levar em conta o eco-sistema e a vida nele presente, são imagens vivas do próprio Deus que estão sendo profanadas e destruídas. Como é importante que cristãos e pessoas de todas as religiões considerem a defesa das florestas, do Cerrado, dos rios e de toda a criação divina como expressão de fé e espiritualidade.

Quando os primeiros missionários cristãos chegaram no México, compreenderam que os índios não aceitavam como Igrejas e lugares de culto, espaços fechados com paredes e telhado. Sua cultura lhes ensinava a sempre unir-se a Deus no contato direto com a natureza. Ainda é tempo de aprendermos com esta sabedoria ancestral e vivermos a nossa fé na comunhão amorosa com todo ser vivo.

Graças a Deus, em muitas cidades já existem comissões locais de defesa da natureza. Jovens se organizam para proteger o Cerrado, para evitar queimadas, proteger rios e até para evitar que uma árvore seja derrubada. Atualmente, alguns teólogos falam em "Corpo cósmico do Cristo”, ou seja, uma presença divina em cada ser do universo e não somente no ser humano. Assim, Jesus que, nos evangelhos, se identifica com cada pessoa empobrecida, também dirá um dia: "Isso que vocês fizeram a cada elemento da natureza, foi a mim que fizeram”.

Marcelo Barros
Monge beneditino e escritor
Fonte: Adital

quarta-feira, 18 de maio de 2011

O Cuidado






BOM PASTOR: JESUS, “HOMEM-DE-CUIDADO”

O sintoma mais doloroso, já constatado há décadas por sérios analistas e pensadores contemporâneos, é um difuso mal-estar na atual civilização. Ele aparece sob o fenômeno do “descuido”, do descaso e do abandono, numa palavra, da falta de cuidado.

A crise generalizada que afeta a humanidade se revela pelo descuido e pela falta de cuidado com que se tratam realidades importantes da vida: a destruição da natureza, a contaminação e a poluição ambi-ental, os moradores de rua, as crianças condenadas a trabalhar como adultos, os aposentados, os idosos, os indígenas, a marginalização dos negros e da mulher, a saúde pública, a educação mínima, a moradia digna, etc...

Tudo o que existe e vive precisa ser cuidado para continuar a existir e a viver: uma planta, um animal, uma criança, um idoso, o planeta Terra...

É urgente uma práxis de cuidado, de re-ligação, de benevolência, de paz perene para com a Terra, para com a vida, para com a sociedade e para com o destino das pessoas, especialmente das grandes maiorias empobrecidas e condenadas da Terra.

O cuidado serve de crítica à nossa civilização agonizante e também de princípio inspirador de um novo paradigma de convivialidade. Diante das realidades vulneráveis faz-se necessário despertar as consciências para a prática do cuidado.
O cuidado é algo mais que um ato ou uma virtude entre outras.
O cuidado se encontra na raiz primeira do ser humano, é um “modo-de-ser essencial” do ser humano.
É uma dimensão fontal, originária, primeira, impossível de ser totalmente esvaziada.
É o cuidado que nos faz sensíveis e nos compromete com quem está à nossa volta.
É o cuidado que nos une às criaturas e nos envolve com as pessoas.
É o cuidado que desperta encantamento face à grandeza do firmamento, suscita veneração diante da complexidade da Mãe-Terra e alimenta enternecimento face á fragilidade de um recém-nascido.
Pelo cuidado, o ser humano se religa ao mundo afetivamente, responsabilizando-se por ele.

Jesus de Nazaré foi aquele que mais encarnou o “modo-de-ser-cuidado”.
Revelou à humanidade o “Deus-Cuidado”, experimentando Deus como Pai e Mãe divinos que cuida de cada cabelo de nossa cabeça, da comida dos pássaros, do sol e da chuva para todos (Mt. 5,45; Lc. 21,18).

Jesus mostrou cuidado especial com os pobres, os famintos, os discriminados e os doentes.
Pelo cuidado, Jesus maravilhou-se diante do milagre da vida e solidarizou-se com os humanos fragili-zados e excluídos. As parábolas do bom samaritano, que mostra a compaixão pelo caído na estrada (Lc. 10,30-37), a do filho pródigo acolhido e perdoado pelo pai (Lc. 15,11-32), e, sobretudo, a do Bom Pastor (Jo. 10,1-18) são expressões exemplares de cuidado e de plena humanidade.

Jesus, em seu ministério “cuidador” transformou a vulnerabilidade em possibilidade, a fraqueza em força, a dor em alegria... O evangelista Marcos diz com extrema finura: “Ele fez bem todas as coisas; fez sur-dos ouvir e mudos falar” (Mc. 7,37).

Sua presença e sua intervenção nos revelam o compromisso com a vida, a afirmação da dignidade e da sacralidade de cada pessoa, bem como a reintegração dos excluídos na comunidade humana. Jesus é um bió-filo (amigo da vida), pois revela uma especial atenção e zelo pela vida, seja da natureza, seja do ser humano. Cada vida é um cenário de manifestação do Pai. Tudo lhe causava admiração e encantamento.

Para Jesus, a cada dia o Pai chama as criaturas pelo nome e as convoca à vida: as águas fluem, os animais procriam, os astros retomam seu curso e o ser humano acorda para o louvor de Deus e o cumprimento de suas tarefas. Pela ação providente e cuidadosa do Pai, a Criação inteira se refaz de crepúsculo em crepúsculo e de aurora em aurora.

Jesus resgatou a centralidade da compaixão, do sentimento, do cuidado e da ternura para com todas as manifestações da vida. Resgatou a dimensão anima, presente como princípio no homem e na mulher, ou seja, a capacidade de se ter cuidado em tudo quanto se faz, de sentir, de ter compaixão, de perceber o Espírito perpassando todas as coisas... É o princípio anima que faz do ser humano um ser espiritual, um ser ético, capaz de responsabilidade, de veneração e de respeito e abre o seu coração para vislumbrar a sacralidade do universo.

Jesus foi um “homem-de-cuidado” e deixou aos seus seguidores um “modo de proceder” fundado no cuidado (cf. parábola do bom samaritano).
Enchemo-nos de cuidado com tudo que para nós significa sentido e valor.

Não habitamos o mundo somente através do trabalho, mas fundamentalmente através do cuidado e da amorosidade. É aqui que aparece o “humano” do ser humano.

Cuidar é dar atenção com ternura, isto é, descentrar-nos de nós mesmos e sair em direção ao outro, sentir o outro como outro, participando da sua existência; cuidar é mais que um ato; é uma atitude “kenótica”, porque exige o esvaziamento de nós mesmos para deixar o mistério do outro encontrar abrigo em nosso coração. “Não temos cuidado; somos cuidado”. Sem cuidado deixamos de ser humanos.

É a partir do cuidado que colocamos limite a toda voracidade neurótica de ter e poder; a partir do cuidado acontece a passagem da lógica da conquista para a lógica da gratuidade, da intervenção para a interação-comunhão, da exploração para a sintonia-cordialidade, do poder-produção para a atenção-res-peito-acolhimento...

O cuidado é gesto amoroso para com o outro, gesto que protege e traz serenidade. Cuidar é envolver-se com o outro, mostrando zelo e preocupação. Mas é sempre uma atitude de benevolência que quer estar junto, acompanhar e proteger. Quer conhecer o outro com o coração e não com a cabeça.

Por isso precisamos do espírito de gentileza e ternura para captar e sentir o outro como outro, como original, para acolhê-lo na sua diferença. O amor é a expressão mais alta do cuidado, porque tudo o que amamos também cuidamos. E tudo o que cuidamos é um sinal de que também amamos.

Na oração: pedir a graça de sentir a ternura, o carinho, a proteção e a cura das mãos benditas e providentes
de nosso Deus;
alargar o coração, para que aí a ternura de Deus possa fazer morada.

Autoria: Pe.Adroaldo
(Texto enviado pela simpatizante de Camargos: Lindalva Macedo)

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Eucaristia: comungar com toda a vida


                                                                                                                             Frei Betto

     Eucaristia significa "ação de graças". É o sacramento central da vida cristã. Entre os fiéis, não se costuma dizer: "Fiz a primeira eucaristia". O habitual é: "Fiz a primeira comunhão". Quem vai à missa diz: "Vou comungar". Quase nunca fala: "Vou receber a eucaristia".
     Comunhão - eis uma palavra abençoada. Expressa bem o que a eucaristia significa. Comunhão vem da mesma raiz que a palavra comunicar.  Se comungo as mesmas ideias de uma pessoa é porque sinto profunda afinidade. Ela diz o que penso e exprime o que sinto. Na eucaristia comungamos: (1) com Jesus; (2) com os nossos semelhantes; (3) com a natureza; e (4) com a Criação divina.
     Jesus instituiu a eucaristia em vários momentos de sua vida. O mais significativo deles foi a Última Ceia, quando tomou o pão, repartiu entre seus discípulos e disse: "Tomai e comei, pois isto é o meu corpo". A partir daquele momento, todas as vezes que uma comunidade cristã reparte entre si o pão e o vinho, abençoados pelo sacerdote, é o corpo e o sangue de Jesus que ela está compartindo. A palavra "companheiro" significa "compartir o pão". Na eucaristia, compartimos mais do que o pão; é a própria vida de Jesus que nos é ofertada em alimento para a vida terna, deste lado, e eterna, do outro.
      Ao receber a hóstia consagrada - pão sem fermento - os cristãos comungam a presença viva de Jesus eucarístico. Nossa vida recebe a vida dele que nos revigora e fortalece. Tornamo-nos um com ele ("…que todos sejam um" (João 17,21).
      Ao instituir a eucaristia na Última Ceia, Jesus concluiu: "Fazei isto em minha memória". Fazer o quê? A missa? A consagração? Sim, mas não apenas isso. Fazer memória é sinônimo de comemorar, rememorar juntos. Ao comemorar os 500 anos da invasão portuguesa, o Brasil deveria ter feito memória do que, de fato, ocorreu: genocídio indígena, tráfico de escravos, exclusão dos sem-terra etc.
      Fazer algo em memória de Jesus não é, portanto, apenas recordar o que ele fez há dois mil anos. É reviver em nossas vidas o que ele viveu, assumindo os valores evangélicos, dispostos a dar o nosso sangue e a nossa carne para que outros tenham vida. Quem não se dispõe a dar a vida por aqueles que estão privados de acesso a ela, não deveria se sentir no direito de aproximar-se da mesa eucarística. Só há comunhão com Jesus se houver compromisso de justiça com os mais pobres, "pois quem não ama seu irmão, a quem vê, não poderá amar a Deus, a quem não vê" (I João 4,20).
     A vida é o dom maior de Deus. "Vim para que todos tenham vida e vida em plenitude" (João 10,10). Não foi em vão que Jesus quis perpetuar-se entre nós naquilo que há de mais essencial à manutenção da vida humana: a comida e a bebida, o pão e o vinho. O pão é o mais elementar e universal de todos os alimentos. O vinho era bebida de festa e liturgia no tempo de Jesus. De certo modo, o pão simboliza a vida cotidiana e, o vinho, aqueles momentos de profunda felicidade que nos faz sentir que vale a pena estar vivos.
     No entanto, há milhões de pessoas que, ainda hoje, não têm acesso à comida e à bebida. O maior escândalo deste início de século e de milênio é a existência de pelo menos 1 bilhão de famintos entre os 6,5 bilhões de habitantes da Terra. Só no Brasil, 30 milhões estão excluídos dos bens essenciais à vida. E inúmeras pessoas trabalham de sol a sol para assegurar o pão de cada dia. Em toda a América Latina morrem de fome, a cada ano, cerca de 1 milhão de crianças com menos de 5 anos de idade.
     A fome mata mais que a aids. No entanto, a aids mobiliza campanhas milionárias e pesquisas científicas caríssimas. Por que não há o mesmo empenho no combate à fome? Por uma simples razão: a aids não faz distinção de classe social, contamina pobres e ricos. A fome, porém, só afeta os pobres.
      Não se pode comungar com Jesus sem comungar com os que foram criados à imagem e semelhança de Deus. Fazer memória de Jesus é fazer com que o pão (símbolo de todos os bens que trazem vida) seja repartido entre todos. Hoje, o pão é injustamente distribuído entre a população mundial. Basta dizer que 80% dos bens industrializados produzidos no mundo são absorvidos por apenas 20% de sua população. Ou seja, se toda a riqueza da terra fosse um bolo dividido em 100 fatias, 1 bilhão e 600 milhões de pessoas ficariam com 80 fatias. E as 20 fatias restantes teriam de ser repartidas para matar a fome de 4 bilhões e 900 milhões. Basta dizer que apenas 4 homens, todos dos EUA, possuem uma fortuna pessoal superior à riqueza somada de 42 nações subdesenvolvidas, que abrigam cerca de 600 milhões de pessoas!
      Jesus deixou claro que, comungar com ele, é comungar com o próximo, sobretudo com os mais pobres. No "Pai Nosso" ensinou-nos uma oração com dois refrões, "Pai Nosso" e "pão nosso".
     Não posso chamar Deus de "Pai" e de "nosso" se quero que o pão (os bens da vida) seja só meu. Portanto, quem acumula riquezas, arrancando o pão da boca do pobre, não deveria sentir-se no direito de se aproximar da eucaristia.
      No capítulo 25, 31-44 de Mateus, Jesus enfatiza que a salvação se sujeita ao serviço libertador aos excluídos, com quem ele se identifica. E na partilha dos pães e peixes, episódio conhecido como “multiplicação dos pães”, Jesus ressalta a socialização dos bens da vida como sinal da presença libertadora de Deus.
 Parte de outro texto do Frei Betto

" Trazemos em nosso corpo 15 bilhões de anos da história ou da evolução do Universo. Os átomos de nosso corpo já foram mares e vulcões, águias e serpentes, carvalhos e rosas (experimente olhar uma criança de rua consciente de que ela traz,em si, 15 bilhões de anos!). Toda a Criação está pois entrelaçada, formando uma única malha. Tudo que existe, préexiste e subsiste. Daí falarmos em Universo, e não em Pluriverso. Essa unidade faz o Cosmo - termo grego que significa " belo", e está na raiz da palavra cosmético, aquilo que traz beleza.

  Nosso corpo e a Terra têm a mesma proporção de água: 70%. Como a Terra,  nosso corpo possui as mesmas protuberâncias e grutas, ondulações e sistemas de irrigação, e até matas em forma de pêlos que protegem a fonte de vida. Somos filhos da Terra...

Já reparou que a nossa vida é uma respiração boca-a-boca com a natureza? Do nascimento à morte jamais deixamos de respirar. Morreríamos se não absorvessemos o oxigênio que nos é fornecido pelas plantas e algas dos oceanos. Contaminados estes a vida na Terra desaparecerá. E quando expiramos, soltamos ar pelas narinas e pela boca, devolvendo gás carbônico à natureza. As plantas e os planctons nutrem-se de gás carbônico. Eis a respiração boca-a-boca.

Viver é um movimento eucarístico

  Vejamos outra dimensão eucarística de nossa relação com a natureza. Impossível viver sem comida e bebida. Toda comida é uma vida que morreu para nos dar vida. O arroz que comemos no almoço é um cereal que morreu para nos dar vida... No ato de nutrição há um caráter eucarístico. Comer é comungar. Em suma viver é um movimento eucarístico.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

A não violência e o amor aos inimigos - Por José Comblin


 (Reflexões com base em Mt 5,38-48 e  Lc 6,27-37)



“Ouvistes que foi dito: Amarás o teu próximo, e odiarás o teu inimigo. Eu, porém, vos digo: Amai a vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem, fazei bem aos que vos odeiam...”

 A não violência e o amor ao inimigo são, com certeza, as maiores características dos discípulos de Jesus e, também, as mais discutidas. Foram, muitas vezes, entendidas de forma errada ou negadas, com força, não somente por não-cristãos, mas também por cristãos que querem tornar a mensagem de Jesus mais aceitável. Nietzsche considerava essa doutrina uma moral de escravos e a entendia como uma reação de rancor e ressentimento de derrotados que não querem enfrentar a situação. Seria a expressão da covardia. Claro está que ela pode ser invocada por pessoas que realmente são covardes e querem legitimar a covardia. No entanto, quando se tomam os textos no seu sentido original, não se trata de covardia. Cabe a cada um de nós e a cada comunidade examinar como essa doutrina se aplica nos conflitos da vida cotidiana.

 O lugar social do amor ao inimigo e da renúncia à violência

 No texto de Mateus (Mt 5,38-48), o contexto mostra que o texto convém no quadro das comunidades depois da guerra da Judéia (66-70). A derrota dos judeus foi completa. Estava tudo arrasado, as comunidades de Mateus, ligadas ao judaísmo, podiam sentir-se totalmente esmagadas. O que fazer, o que pensar ou sentir nessa oportunidade? O inimigo está triunfando, e desapareceu toda esperança de resistência. “Nessa situação de opressão, o texto de Mateus expressa a consciência da possibilidade de agüentar a situação com amor ao inimigo e renúncia à violência e, assim, estar em superioridade quanto aos adversários, os gentios. Olhar para eles torna-se compreensível no seguinte raciocínio: Há uma diferença entre olhar [para baixo] para aqueles aos quais, de qualquer modo, se é superior e entre o fato de a pessoa subjugada preservar a sua honra, sabendo-se interiormente superior ao vencedor. A idéia de um Deus que está acima do bem e do mal permite suspeitar que essa postura seja um ressentimento”.

Como textos que constituem esse contexto de um povo subjugado, citamos Mt 5,41 que se refere às prestações de serviço obrigatório impostas pelos soldados como serviço ao estado; também Mt 5,39 com os quatro exemplos de reações não-violentas, o que se explica diante do desastre do ano 70; também a comparação entre Mt 5,44 e 5,9.

Há duas particularidades no texto de Lucas (Lc 6,27-37). A primeira é a representação de uma sociedade urbana em que as relações de reciprocidade são comuns e respondem a uma ética tradicional. É preciso tratar os outros sem ódio se queremos ser tratados sem ódio. Essa regra de ouro, a regra da reciprocidade, já era comum entre os filósofos gregos. Não é novidade cristã.

A segunda particularidade é a grande insistência de Lucas no dinheiro. O princípio geral é : “Dá a todo o que te pede”. Perdoar é perdoar a dívida, não cobrar a dívida (Lc 6,37-38). Aqui o inimigo é o devedor. Amar o inimigo é perdoar a dívida.

Dessa maneira, tanto Mateus como Lucas aplicam as palavras de Jesus a casos particulares, dando-lhes sentidos bem específicos. Eles não inventaram as palavras de Jesus. Receberam-nas de uma tradição comum. Essa mesma tradição deriva de Jesus. Como saber o que havia na tradição comum e o que o próprio Jesus pensava?


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