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sexta-feira, 4 de maio de 2012

Reflexão do dia


O tempo por Salvador Dali


“Dizem que a vida é curta, mas não é verdade. A vida é longa para quem consegue viver pequenas felicidades. E essa tal felicidade anda por aí, disfarçada, como uma criança tranqüila brincando de esconde-esconde. Infelizmente às vezes não percebemos isso e passamos nossa existência colecionando ‘NÃO’: a viagem que não fizemos, o presente que não demos, a festa que não fomos, o amor que não vivemos, o perfume que não sentimos. A vida é mais emocionante quando se é ator e não expectador, quando se é piloto e não passageiro, pássaro e não paisagem, cavaleiro e não montaria. E como ela é feita de instantes, não pode nem deve ser medida em anos ou meses, mas em minutos e segundos. Esta mensagem é um tributo ao tempo. Tanto aquele tempo que você soube aproveitar no passado quanto aquele tempo que você não vai desperdiçar no futuro. Porque a vida é agora. Não tenha medo do futuro, 
apenas lute e se esforce ao máximo para que ele seja do jeito que você sempre desejou. A morte não é maior perda da vida. A maior perda da vida é o que morre dentro de nós enquanto vivemos.
(Dalai Lama)

Enviado  por Lindalva Macedo

quarta-feira, 25 de abril de 2012

A linguagem no mundo da fé (escritos de Roger Lenaers)

A linguagem é apropriada?

  " Mas, por que queremos partilhar com os outros o que pensamos, sentimos ou queremos? Para nos vincularmos mais a eles.Afinal, temos uma necessidade natural de fazê-lo: sem os outros já não somos os mesmos. E, além disso, precisamos ser confirmados ou corrigidos mediante sua reação (por meio da mesma linguagem) para poder profredir, e para estimular os outros a fazê-lo. A linguagem também tem a função de ajudar no nascimento daquilo que ainda está informe e obscuro no sujeito, para configurá-lo e trazê-lo á luz, de tal maneira que este assuma sua própria interioridade.

  Ao longo dos séculos, o grupo cultural cristão ocidental desenvolveu sua própria estética para expressar o que pensava e sentia coletivamente. Isso quer dizer que construiu sua própria linguagem, tanto no sentido estrito como no amplo, formulou leis e confissões, criou rituais e os tronou obrigatórios, edificou e equipou monastérios e igrejas. Por meio de figuras e cores deu forma a sua esperanças, expectativas, imaginações, medos,alegrias,dúvidas conscientes ou inconscientes. Porém, a seguir ocorreu algo assombroso. Aquela linguagem que durante mil anos todos compreendiam no Ocidente transformou-se, pouco a pouco, num idioma estrangeiro, uma língua morta, compreensível somente para aqueles que foram previamente educados nela.

(...) cada linguagem, inclusive a cristã, está ligada a sua época.A linguagem cristã teve origem numa fase cultural bem determinada e ainda conserva sinais dela. Serviu para expressar as experiências e representações de um grupo, pequeno em seus inícios, que em sua bsuca da realidade transcendente de e"Deus" se deixou inspirar e guiar pela figura messiânica de Jesus de Nazaré. A linguagem desse pequeno grupo do século I se estendeu pouco a pouco...

(...) as representações usadas pela Igreja em sua pregação, sua imagem do mundo e da humanidade, assim como a própria imagem de Deus,permaneceram na idade Média, enquanto a sociedade ocidental se distancia daquela época a uma velocidade cada vez maior. Quem pensa e sente como na Idade Média, fala assim também. Essa linguagem (usada em missas, pregações) se tornou um idioma "estrangeiro" como era até pouco tempo o latim eclesiástico.

Os fiéis de pensamente moderno tampouco teriam razão se esperassem que a imprescindível renovação de nosso mundo da fé viesse exclusivamente, ou em primeiro lugar,do melhoramento e da adaptação da linguagem,ou seja, das estruturas, formas, tradições e uso eclesiásticos.

Se a linguagem tradicional deixou de ser útil,isso ocorre não porque tenha erros ou seja pouco clara, e sim porque encarna correta e claramente representações atualmente superadas, que a modernidade depositou no sumidouro do passado."

LENAERS,Roger. Outro Cristianismo é possível. Paulus: São Paulo, 2011.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Páscoa - Eis o Cordeiro de Deus (rEfLeXãO _ por Max Lucado)



 Eis o Cordeiro de Deus

Senhor? Sim.
Pode ser que eu esteja errando ao dizer isso, mas preciso lhe dizer algo que estou pensando.
Pode falar.
Eu não gosto deste versículo: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” Não parece com você; não parece algo que o senhor diria.
Normalmente eu adoro quando você fala. Eu escuto quando você fala. Eu imagino o poder de sua voz, o trovoar dos seus mandamentos, o dinamismo em suas ordens. Isso é o que eu gosto de ouvir.
Lembre-se da canção de criação que você cantou na silenciosa eternidade? Ah, agora isso é você. Este era o ato de um Deus!
E quando você ordenou as ondas a salpicarem e elas rugiram, quando você mandou que as estrelas fossem arremessadas e elas voaram, quando você proclamou que a vida fosse vivida e tudo começou? . . . Ou o sussurro de respiração no barro assado que seria Adão? Isso era o seu melhor. É assim que eu gosto de lhe ouvir. Esta é a voz que eu adoro ouvir.
É por isso que eu não gosto deste versículo. É realmente você falando? Essas palavras são realmente suas? Essa é de fato sua voz? A voz que acendeu um arbusto, dividiu um mar, e enviou fogo de céu?
Mas desta vez sua voz é diferente.
Olhe para a declaração. Há um “por que” no início e um ponto de interrogação ao fim. Você não faz perguntas.
O que aconteceu com o ponto de exclamação? Esta é sua marca registrada. Esta é sua assinatura. A marca tão alta e forte quanto as palavras que precedem.
Está no fianl de seu comando para Lázaro: “Venha!”[1]. Está lá quando você exorciza os demônios: “Vá!”[2]
Está lá tão valentemente quanto você quando você caminha por sobre as águas e fala para os seguidores: “Tenham Coragem!”[3]
Suas palavras merecem um ponto de exclamação. Eles são o estrondo de címbalos do final, o tiro de canhão de vitória, a trovada conquistadora de carruagens.
Seus verbos abrem desfiladeiros e acendem os discípulos. Fale, Deus! Você é o ponto de exclamação da própria vida. . .
Então, por que o ponto de interrogação que paira sobre o término de suas palavras? Delicado. Dobrado e curvado. Inclinado como se estivesse cansado. Tomara que você o endireitasse. Estire. Faça-o ficar reto e alto.
E já que estou sendo bem franco com você – eu também não gosto de ver a palavra abandonar. A fonte de vida. . . abandonado? O doador de amor. . , só? O pai de tudo. . . isolado?
Veja bem. Certamente você não quer dizer isso. Pode a divindade se sentir abandonada? Nós poderíamos mudar um pouco a declaração? Não muito. Só o verbo. O que você sugeriria?
Que tal desafio? “Meu Deus, meu Deus, por que me desafiaste?”
Não é melhor? Agora nós podemos aplaudir. Agora nós podemos erguer bandeiras para sua dedicação. Agora nós podemos explicar isso aos nossos filhos. Agora faz sentido. Agora, isso lhe faz um herói. Um herói. A história está cheia de heróis.
E quem é um herói senão aquele que sobrevive a um desafio.
Ou, se isso não for aceitável, eu tenho outro. Por que não aflição? “Meu Deus, meu Deus, por que me afligiste?” Sim, é isso mesmo. Agora você é um mártir, fincando o pé para a verdade. Um patriota, perfurado pelo mal. Um soldado nobre que levou a espada toda até o cabo; ensangüentado e machucado, mas vitorioso.
Afligido é muito melhor que abandonado. És um mártir. Lá bem ao lado de Patrick Henry e Abraham Lincoln.
Você é Deus, Jesus! Você não pôde ser abandonado. Você não pôde ser deixado só. Você não pôde ser abandonado em seu momento mais doloroso.
Abandono. Isso é o castigo para um criminoso. Abandono. Isso é o sofrimento agüentado pelos piores. Abandono. Isso é para o vil – não para você. Não você, o Rei de Reis. Não você, o Princípio e o Fim. Afinal de contas, não foi você que João chamou de Cordeiro de Deus?
Isso é que é nome! Isso é que é você. O Cordeiro imaculado e puro de Deus. Eu posso ouvir João dizendo as palavras. Eu posso vê-lo erguendo os olhos. Eu o vejo sorrir e apontar para você e proclamar alto o bastante para todo o Jordão ouvir, “Veja o Cordeiro de Deus. . .” E antes dele terminar a declaração, todos os olhos viram para você. Jovem, bronzeado, robusto. Ombros largos e braços fortes.
“Veja o Cordeiro de Deus. . .” Você gosta daquele versículo?
Eu gosto muito. Deus. É um dos meus favoritos. É você. E a Segunda parte?
Hummm, deixe-me ver se eu me lembro. “Veja o Cordeiro de Deus que veio tomar o pecado do mundo”.[4] Não é isso, Deus?
É isso aí. Pense no que o Cordeiro de Deus veio fazer.
“Que veio tomar o pecado do mundo.” Espere um minuto. “Tomar o pecado. . .” Eu nunca tinha pensado nessas palavras.
Eu as li mas nunca pensei sobre elas. Eu pensei que, sei lá, você simplesmente tivesse mandado o pecado embora. Baniu-o. Eu pensei que você apenas tinha ficado diante das montanhas de nossos pecados e as mandado sumir. Como você fez com os demônios. Como você fez com os hipócritas no templo.
Eu pensei que você simplesmente tinha mandado o mal embora. Eu nunca notara que você o tinha tomado. Nunca me ocorreu que você de fato o tocou - pior ainda, que o pecado lhe tocou.
Isso dever ter sido um momento terrível. Eu sei o que é ser tocado por pecado. Eu sei o que é sentir o fedor dele. Lembra como eu era antes? Antes de eu lhe conhecer, eu me espojei naquele lamaçal. Eu não só toquei pecado, eu o amei. Eu o bebi. Eu dancei com ele. Eu estava no meio dele.
Mas por que eu estou lhe falando? Você se lembra. Foi você que me viu. Foi você que me achou. Eu estava só. Eu tinha medo. Lembra? “Por que? Por que eu? Por que estou tão machucado?”
Eu sei que não era uma boa pergunta. Não era a pergunta certa. Mas era tudo eu conseguia perguntar. Veja, Deus, eu me sentia tão confuso. Tão desolado. Pecado faz isso com você. Pecado lhe deixa naufragado, órfão, à toa, aban–
Ó Meu Deus. Foi isso que aconteceu? Quer dizer que o pecado fez o mesmo a você que fez a mim?
Eu sinto muito. Ó, eu sinto tanto. Eu não sabia. Eu não entendi. Você realmente estava só, não foi?
Sua pergunta foi real, não foi, Jesus? Você realmente sentiu medo. Você realmente estava só. Como eu estava. Só que, eu merecia. Você não.
Perdoe-me, eu falei sem pensar.
[1] João 11:43
[2] Mateus 8:32
[3] Mateus 14:27
[4] João 1:29


quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Pequena reflexão cristã sobre o Carnaval

- Aproxima-se o período do Carnaval e, automaticamente, desperta em nós a ânsia em estarmos reunidos com os amigos, buscando a diversão, a alegria, com direito a muita música e agitação! Para a maioria, é assim!




Mas, afinal, por que celebramos o Carnaval?

Etimologicamente, o termo Carnaval advém, dentre várias interpretações, de “carne vale” que significa “adeus carne” ou “despedida da carne”, pois que permitido o consumo de carne no tríduo que antecede a quarta-feira de cinzas, marco da Quaresma. (período durante o qual é recomendada a prática da penitência e abstinência de carnes vermelhas).
Desde a origem da festividade do Carnaval, há um contraste entre o carnaval cristão e o carnaval pagão. E, de fato, percebemos ainda hoje essa discrepância.

De um lado, muitos jovens aproveitam essa data para extravasarem seus desejos, influenciados pela sensação de ”liberdade”, em que tudo é permitido. É comum, portanto, vermos nos carnavais a presença do excesso: de bebidas, de drogas, do apelo sexual etc. Vale lembrar que estes “sintomas” são perceptíveis, também, em outras épocas do ano, não apenas no carnaval.

Tal comportamento vem acompanhado do vazio, da “ressaca moral”, da ausência daquilo que verdadeiramente é capaz de nos preencher: o amor, a paz no coração, a liberdade de poder dizer SIM e NÃO.

“Liberdade é ter O Amor pra se prender...”

Por outro lado, o carnaval cristão experimenta a verdadeira alegria de estar na presença viva e real do Amor. O dançar, o cantar, o comportar-se muda de feição. Aqui, tudo o que é do bem e para o bem é permitido. Todos somos chamados a viver e aproveitar o tempo do Carnaval, que é tempo de festejar, com a alegria própria que o momento requer, sem, no entanto, extremar os excessos.

Fomos criados para amar ao próximo como a nós mesmos; para propagar e incentivar aquilo que é bom e verdadeiro; para vivermos conforme nos exige o senso de responsabilidade social, respeitando os limites da coletividade. Não somos meros expectadores da vida, mas estamos aqui, para sermos os atores, exercendo fielmente nosso papel de cristãos, com alegria e entusiasmo, com música e dança, com amigos e familiares, com respeito e fraternidade. Com amor!

Vivemos, sim, no mundo; e o mundo precisa, sim, de nós: jovens de calça jeans que amam, que dançam, que se divertem, e que sabem, acima de tudo, viver e fazer suas escolhas com o olhar para o Alto!

Quantos jovens desejam encontrar a felicidade que o mundo não nos proporciona? Como é difícil, por vezes, aceitar e desejar as coisas do Pai! O mundo nos põe à prova a todo momento. O Carnaval alimenta em nosso espírito uma propensão ao pecado, a desejar o que não é saudável, tirando-nos do foco. Sim, isso acontece com muitos.

O momento é propício para que analisemos tudo aquilo que nos mancha, que nos tira a paz de estar em paz com Deus. É tempo, pois, de iniciar ou persistir no chamado à conversão, preparando nossos corações para a Quaresma.

Independente do local onde você for passar o Carnaval, o segredo é não perder o senso de responsabilidade cristã.

Proponho a todos, e a mim mesma, vivenciar um carnaval de paz, sem excessos...

Um carnaval de dentro pra fora, onde nós possamos aproveitar três dias de alegria plena e duradoura.

"Orai e vigiai, pois o espírito está pronto, mas a carne é fraca" (Mateus 14, 38).




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por
Sabrina Tabatinga Araujo Bacharela em Direito, Serva GSV (Grupo São Vicente). Paróquia de São Vicente/ Fortaleza-Ce.

sábado, 26 de novembro de 2011

ADVENTO : tempo de mobilização


José Lisboa Moreira de Oliveira
Dentro de poucos dias estaremos vivendo mais um período litúrgico do Advento, tempo no qual algumas Igrejas cristãs se preparam para a celebração do nascimento de Jesus. Talvez o que ainda não esteja tão claro é que, tanto no seu significado etimológico como no sentido litúrgico, o Advento pede mobilização por parte das pessoas. O prefixo "Ad” que está no início da palavra expressa essa necessidade de ação. Ao consultarmos qualquer gramática vamos perceber que os prefixos são morfemas colocados antes dos radicais com a finalidade básica de modificar-lhes o sentido. O morfema é a menor unidade gramatical que se pode identificar numa língua. Ele é sumamente importante na definição do sentido exato de uma palavra.
Assim sendo, tanto do ponto de vista teológico como do ponto de vista etimológico, o Advento implica um duplo movimento. O primeiro e mais importante é o da aproximação da chegada. Cristo é aquele que está se aproximado, que está chegando. E está chegando como um ladrão: de surpresa, sem hora marcada, causando impacto, roubando a cena e provocando reviravoltas. Para os cristãos e as cristãs esta chegada de improviso exige vigilância e atenção aos sinais dos tempos. Não se pode impor a Jesus uma maneira de chegar; uma maneira que atenda às nossas exigências e que se encaixe nos nossos esquemas pré-montados. Ele chegará sem avisar e quer encontrar todo mundo de pé, vigilante, pronto para acolhê-lo e servi-lo (Lc 12,35-48), especialmente no irmão e na irmã necessitada (Lc 14,15-24).

De consequência, o segundo movimento é o de ir para junto, ir ao encontro daquele que vem. Os cristãos e as cristãs não só devem ficar atentos aos sinais da aproximação de Cristo, mas devem ir ao encontro dele, antecipando de certa forma a sua chegada. Este ir ao encontro de Jesus que vem se traduz em ações concretas em favor de quem neste momento mais precisa de nós: "Vá, e faça a mesma coisa” (Lc 10,37).
Infelizmente estes aspectos não são enfatizados nas liturgias, na catequese e na práxis cristã. De um modo geral os cristãos e as cristãs costumam aguardar acomodados o desenrolar dos fatos. A forma atual de celebrar e de viver a fé é completamente dispersiva. Também as igrejas introduziram em suas celebrações e rezas a barulheira da sociedade atual. Não há mais espaço nas comunidades cristãs para aquele clima de silêncio e de escuta, de modo a se perceber os sinais da presença de Deus, o qual costuma se manifestar de maneiras bem diferentes daquelas que estamos acostumados (Jo 3,8). Além disso, nessas comunidades não existe mais uma reflexão séria, crítica, questionadora, que provoque e desinstale as pessoas. Não há mais catequese, entendida como ação que faz ressoar a Palavra no coração dos crentes. As homilias dos padres, salvo honrosas exceções, não passam de frases soltas e desconexas que a ninguém toca ou incomoda.

Isso é agravado pela presença forte nas comunidades cristãs do pieguismo, da resignação e da crença no destino e na fatalidade. Acredita-se piamente que tudo já está previamente definido por Deus e não há mais nada a fazer, a não ser aceitar passivamente o que acontece. As idas às igrejas visam apenas vantagens pessoais e egoístas e não encontrar estímulo para mudar o que Deus quer que nós mudemos. As pessoas querem apenas receber um pouco de água benta na cabeça para se sentirem aliviadas. Elas não querem se envolver com os outros e com os problemas da sociedade. Cada um que se vire para viver e se livrar de situações complicadas. A experiência da fé foi totalmente privatizada.
Nestes dias fiquei surpreso ao descobrir que aqui em Brasília algumas igrejas evangélicas estão introduzindo o "drive thru” em suas celebrações. Como as pessoas não têm mais tempo para ir aos templos, os pastores estão criando "drive in” em suas igrejas para, no domingo, receber os "clientes” que estão indo almoçar. Antes de seguirem para os restaurantes as pessoas passam pela igreja, o pastor lê um trecho bíblico, fala meia dúzia de palavras bobas, passa a sacolinha, dá uma bênção e o pessoal segue adiante. Tudo isso muito rápido, sem que ninguém precise sair do carro. A santa ceia está se tornando um "fast food”! Não vai demorar e a Igreja Católica estará adotando a prática. Afinal de contas virou moda os católicos imitarem os evangélicos. Como não há mais criatividade parte-se para o comportamento mimético. Hoje o mais importante não é criar, mas imitar.

Se estivermos atentos aos textos bíblicos, lidos e meditados durante o período do Advento, vamos perceber que a liturgia nos convida a agir de forma diferente. Neles é muito claro o convite a prestar atenção aos sinais e a sair do comodismo para ir ao encontro do Senhor que está chegando e, muitas vezes, chegando na pessoa necessitada. Os personagens bíblicos (Profetas, Maria, Zacarias, Ana mãe de Samuel, José, Isabel, João Batista), apresentados como paradigmas da espera ativa, deveriam nos incomodar e nos desinstalar. Eles são modelos de pessoas que não ficaram acomodadas, esperando que Deus resolvesse os seus problemas e os problemas dos outros. Basta lembrar Maria se deslocando através das montanhas da Judéia para ir ao encontro de Isabel. Ou recordar o carpinteiro José, que pensa em profundidade e se questiona sobre o que está acontecendo com sua noiva. Ao ter certeza do que estava acontecendo, levou Maria para a sua casa e assumiu a paternidade de um filho que não era seu (Mt 1,24-25).
Não há, pois, como viver intensamente o Advento se não nos mobilizarmos, se não nos sintonizarmos com os sinais dos tempos e não buscarmos antecipar as soluções para tantos problemas com os quais convivemos no momento atual. Sobre o mundo paira a inquietação. O ano de 2011 está para se concluir com um saldo muito grande de acontecimentos preocupantes. Desde a "primavera árabe” até as recentes manifestações contra a corrupção e contra o colapso econômico mundial há sede de democracia, de justiça, de igualdade, de fraternidade e de paz.
Aqueles e aquelas que pretendem celebrar o Advento fechados em seu mundinho ou dentro das quatro paredes de um templo estão distorcendo o verdadeiro significado deste tempo litúrgico. Cristo não vem para distribuir "kits de salvação” ou para ficar escutando rezas barulhentas, no estilo dos profetas de Baal (1Rs 18,25-29). Vem nos convocar para um engajamento sério, para um compromisso com a transformação do mundo. "Eu vim para lançar fogo sobre a terra: e como gostaria que já estivesse aceso!” (Lc 12,49). A verdadeira celebração do Advento se dá fora dos templos, nas ruas e praças de nossas cidades. Deve acontecer debaixo dos viadutos ou num cantinho deste país onde um "sem-terra” ou um indígena luta para ter seu pedaço de chão.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Francisco de Assis: um projeto de vida para nossos tempos



Ao celebrarmos a Solenidade de nosso Pai São Francisco, bate em nosso coração um forte sentimento de saudade. Temos saudades do Francisco apaixonado pela vida, do Francisco irmão de toda criatura, do Francisco pobre e companheiro dos pequenos e excluídos, do Francisco peregrino e forasteiro, do Francisco cantor da alegria e do sofrimento, do Francisco de Clara, de Antônio e de cada um de nós.
Mas, esse sentimento não pode reduzir-se a um simples recordar, nostálgico e melancólico, mas tornar-se realidade, atitude concretas, principalmente a todos os que se dão o adjetivo de “franciscanos e franciscanas”.  Ser franciscanos e tornar atual o carisma do Poverello de Assis, é trilhar caminhos de fraternidade, de solidariedade, minoridade e oração.
Neste dia festivo somos convidados a avaliar nossa caminhada e firmarmos propósitos evangélicos, afinal, esta é a vida de todo e qualquer franciscano: viver o Evangelho.

Viver o Evangelho em minoridade.
Ser para o mundo sinal de contradição. Numa sociedade que prega a busca de status, poder, sermos sinais de simplicidade, de desapego. Não queremos ser donos nem senhores. Para tal, urge que tenhamos novas posturas frente aos títulos e privilégios que a sociedade confere aos membros da hierarquia e religiosos; aos títulos e honrarias que são oferecidos aos estudados, em detrimento dos que não tiveram acesso a uma educação de qualidade; na execução dos papéis sociais, não assumindo atitudes autoritárias, de imposição e inibição dos irmãos.

Viver o Evangelho em pobreza.
Não desejar ter além do necessário para uma vida digna. É inconcebível pensar franciscanos e franciscanas preocupados com aplicações financeiras, rendimentos bancários, especulações imobiliárias, lucros... o sinal mais eloqüente da vivência franciscana do Evangelho é a vida de pobreza, onde, em solidariedade com os menos favorecidos de nossa sociedade, buscamos viver o despojamento, o pão-de-cada-dia, a confiança na Providência Divina.  Cuidarmos da nossa maneira de vestir, de alimentar, de consumir... Trabalhar nossos desejos, não querendo apropriarmo-nos de bens e pessoas.

Viver o Evangelho em fraternidade.
Sentirmo-nos irmãos de toda criatura. Sonharmos a fraternidade universal com Francisco e Clara. Reconhecermos em cada pessoa a imagem do Criador, não desprezando ninguém, nem as julgando inferiores e, muito menos, desprezíveis. Sermos sinais de misericórdia e acolhida, apoio e conforto nas dificuldades, solidariedade e compaixão nos sofrimentos. Estabelecermos relações firmadas nas pessoas e em sua dignidade, não em seus bens ou posições sociais. Construirmos relações firmadas na verdade e no respeito ao outro, com autenticidade e respeito às diferenças.

Viver o Evangelho em comunhão com toda a natureza.
Em tempos de acelerada destruição e violação dos direitos da natureza, somos convocados à missão de defesa e cuidado com toda forma de vida. Unirmos nossa voz às vozes de tantos homens e mulheres que buscam proteger as matas, as nascentes, a qualidade do ar que respiramos, a Mãe Terra, em ONGs, Associações e Movimentos Ecológicos. Buscarmos uma qualidade de vida, com alimentação adequada, mais natural e menos artificial.

Viver o Evangelho em espírito de oração.
Sermos pessoas orantes, contemplativas, em constante busca da vontade do Senhor. Mantermos um diálogo aberto com o Pai, em momentos de oração pessoal e comunitária; buscarmos lugar de deserto e de silêncio; cultivarmos a leitura da Bíblica como prática cotidiana, exercício de intimidade com o Pai; alimentarmos práticas devocionais que nos aproximem da Virgem Maria e dos Santos, autênticos praticantes do Evangelho.

Viver o Evangelho em pureza de coração.
Desejar apenas uma coisa: viver o Evangelho, servindo ao Senhor na construção de seu Reino. Sermos puros e sinceros em nossa vivência com o Senhor, não desejando o mal e nem sendo instrumentos de discórdias.  Não nos perdermos na imensidão das ofertas que o mundo de hoje nos apresenta, colocando a centralidade de nossa vida em Jesus Cristo em sua proposta de vida.

Viver o Evangelho em construção da paz.
Em tempos de guerra e de cotidianas cenas de violência, sermos sinais de paz, de diálogo e entendimento. Anunciarmos um tempo de paz com atitude de não-violência, de defesa da justiça e da dignidade de cada criatura. A paz está intimamente ligada à justiça, por isso não podemos ser coniventes com estruturas de morte que invadem as vidas das pessoas, roubando-lhes sua dignidade.

Viver o Evangelho... Simplesmente viver...
Que São Francisco de Assis, o jovem de Assis que, em seu tempo, foi um sinal eloqüente do Projeto de Vida de Jesus Cristo, nos inspire a assumirmos audazes e corajosas opções em favor da vida.
Que não nos acomodemos na segurança das instituições e do capital, assumindo discursos que justifiquem tais posições, vivendo a hipocrisia da aparência e do farisaísmo tão atacada por Jesus nos Evangelhos.
Que sonhemos um sonho de paz, de harmonia, de consciência de nossa minoridade, mas da certeza que com Deus somos muito mais, se dermos as mãos e formarmos a grande fraternidade sonhada por Francisco.
Feliz dia de Nosso Pai São Francisco!
Fraternalmente,
Frei Gilberto Teixeira da Silveira, fsma

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

SURPREENDA





Honre a palavra,

cumpra a promessa feita,

seja grato,

seja honrado,

aja de acordo com a fala,

nisto consiste a novidade,

faça aquilo que deve ser feito

pois é o que o coração manda,

qualquer coisa diferente disto

cai no lugar comum da mediocridade estabelecida: mentira, desonra, incoerência, falsidade, engano, mas se isto já é tão comum não é, de fato, verdadeiro engano, é apenas aquilo que se espera, portanto surpreenda!
Esta surpresa será deveras apreciada e, apesar de, eventualmente, alguns te considerarem bobo você apenas quer ser surpreendido e surpreender com algo essencialmente humano.

Esta capacidade de surpreender é hoje em dia verdadeiro ato de revolução. Por isso Jesus foi surpreendente, assim como Buda, assim como Gandhi, mas grandes nomes parecem inalcançaveis, quando foram apenas isto: humanos. E todo eles disseram que a grandeza é um ato simples de honra, de amor, de verdade. Grandes mestres foram grandes apenas por estes atos. O salto de qualidade da consciência humana requer estes atos tão surpreendentes! Agora mesmo você pode surpreender e tornar-se mestre de si, ser humano. Há nisso verdadeiro poder! Surpreenda! Surpreenda-se! Seja humano.

(Autor desconhecido)

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Francisco e Clara - mergulhados na realidade de sua cidade

“Δ ƨɛмɛитɛ ғσι ℓαиçα∂α. Ĵá иαƨcɛʋ.
Иãσ ∂á мαιƨ ραяα яɛcσℓнɛя. Ѵαι ρяσ∂ʋʓιя ғяʋтσƨ!
É ʋмα αтιтʋ∂ɛ ρяσғéтιcα иʋм мʋи∂σ тãσ иɛcɛƨƨιтα∂σ!"
(Alcires Ferrari – Blumenau/SC)

Para beber da fonte francisclariana lembramos que ela brotou em um contexto de Idade Média européia, um período de transição entre o feudalismo e a ascensão da burguesia, ou seja, o capitalismo mercantil. É, portanto, uma conjuntura em movimento, com mudanças profundas nas formas de estabelecer relações, de organizar a produção e de posicionar-se nas camadas sociais. A igreja, ainda “senhora feudal”, uma vez que era proprietária de diversos feudos, está também sofrendo as consequências de tal movimento.


A reflexão se inspirou em algumas imagens:

A primeira delas, Clara e Francisco contemplando o presépio, o Mistério da Encarnação do Verbo. Nela descobrem que o “menino envolvido em faixas e deitado em uma manjedoura” é o grande sinal da presença e fidelidade de Deus para com a humanidade. A partir desta experiência, também eles mergulham profundamente na realidade de sua cidade, e a descobrem diferente do que até então haviam visto. Identificam fissuras e assimetrias. Encontram-se com aqueles que habitam os “porões” de Assis. Diferentemente da forma de vida religiosa que havia até então, baseada na busca da santidade a partir da “fuga do mundo”, o que Francisco e Clara fazem é um movimento de aproximação do “mundo”, compreendendo-o mais profundamente e assumindo nele posicionamentos, tanto eclesiais, quanto políticos e econômicos. Viveram uma fé baseada na solidariedade e na mudança de lugar social. Recriaram relações que, para seu tempo, foram chocantes. Encontrar-se diariamente com leprosos já havia se tornado insuportável para os santos de Assis. A atitude de abandonar a casa dos pais, pela porta da frente ou, quando não foi possível, pela porta dos fundos, pôs em evidência a fragilidade do sistema social e eclesial daquele período: desigualdades, hierarquias e absolutismos.

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Sacudindo a Terra



Um dia, o cavalo de um camponês caiu num poço.
 Não chegou a se ferir, mas não podia sair dali por conta própria.
Por isso o animal chorou fortemente durante horas, enquanto o camponês pensava no que fazer.
Finalmente, o camponês tomou uma decisão cruel: concluiu que o cavalo já estava muito velho e não servia mais para nada, e também o poço já estava mesmo seco, precisaria ser tapado de alguma forma.
Portanto, não valia a pena se esforçar para tirar o cavalo de dentro do poço.
 Ao contrário, chamou seus vizinhos para ajudá-lo a enterrar vivo o cavalo.
Cada um deles pegou uma pá e começou a jogar terra dentro do poço.
O cavalo não tardou a se dar conta do que estavam fazendo com ele, e chorou desesperadamente.
Porém, para surpresa de todos, o cavalo quietou-se depois de umas quantas pás de terra que levou.
O camponês finalmente olhou para o fundo do poço e se surpreendeu com o que viu
. A cada pá de terra que caía sobre suas costas o cavalo a sacudia, dando um passo sobre esta mesma terra que caía ao chão.
Assim, em pouco tempo, todos viram como o cavalo conseguiu chegar até a boca do poço, passar por cima da borda e sair dali trotando.
A vida vai lhe jogar muita terra, todo o tipo de terra. Principalmente se você já estiver dentro de um poço.
O segredo para sair do poço é sacudir a terra
Cada um de nossos problemas é um degrau que nos conduz para cima.
 Podemos sair dos mais profundos buracos se não nos dermos por vencidos.
 Use a terra que te jogam para seguir adiante!

Autor desconhecido

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Reflexão do dia



“ Crie laços com as pessoas que lhe fazem bem, que lhe parecem verdadeiras. E desfaça os nós que lhe prendem àquelas que foram significativas na sua vida,mas  que infelizmente deixaram de ser….
Nó aperta, laço enfeita…
Simples assim. “

Por Lindalva Macedo


domingo, 28 de agosto de 2011

O cântico da Fraternidade Cósmica - "Oração pela Paz de São Francisco"



A “Oração pela paz de São Francisco” é, certamente, um dos textos mais conhecidos do santo de Assis. Entretanto, essa oração, apesar de expressar de maneira simples e, ao mesmo tempo, profunda, o espírito de São Francisco de Assis, não foi escrita por ele. A sua composição remonta ao início do século XX, no contexto da I Guerra Mundial. Pouco tempo depois da sua difusão, foi atribuída a São Francisco.

Se queremos conhecer em profundidade e autenticidade a vida, a mística e o espírito de São Francisco, precisamos recorrer a uma das suas mais belas composições: o “Cântico do Irmão Sol”, uma das primeiras obras primas escritas em língua italiana antiga.

São Francisco, antes da sua conversão, era o chefe de um grupo de jovens e barulhentos trovadores da sua cidade natal. O ambiente do século em que ele viveu era marcado pela poesia e pela música da cavalaria, que, mais tarde, resultarão na lenda do Rei Artur e seus cavaleiros. Esse espírito cavalheiresco e de trovador não foi abandonado por Francisco após a sua conversão. Pelas ruas de Assis e dos burgos da região, ele, juntamente com seus companheiros, cantava louvores a Deus, chamando os seus ouvintes à conversão.

O Cântico do Irmão Sol carrega esse espírito trovador de Francisco. Entretanto, para conhecermos em profundidade o espírito presente nos versos desse cântico, é importante conhecermos o contexto em que ele foi gestado.

O Cântico do Sol é um cântico à luz. Mas esse cântico jorrou da noite mais escura e profunda. O período em que o Cântico do Irmão Sol começou a ser redigido foi um tempo particularmente difícil para Francisco. Dois anos antes de sua morte, após receber os estigmas do crucificado no monte Alverne, Francisco fez-se transportar até São Damião, local de moradia de Clara e suas irmãs. A própria Clara preparou-lhe uma palhoça com caniços e ramagem para protegê-lo da luz do dia. Uma doença dos olhos contraída durante sua estadia no oriente já o havia feito perder praticamente toda a visão. Nessa palhoça, Francisco passou mais de cinqüenta dias sem poder suportar a luz do sol ou do fogo à noite, com muito sofrimento causado pela sua doença. Nos raros momentos em que a dor lhe dava descanso e que ele conseguia dormir um pouco, eram tantos os ratos que corriam sobre ele que não conseguia descansar. Mesmo durante o dia e nos momentos de oração, os ratos não lhe davam descanso.

Foi nesse ambiente que Francisco começou a compor o seu Cântico do Irmão Sol, depois de receber a certeza de que participaria do reino celeste. Compôs os versos e a melodia para os mesmos, que ensinou aos seus irmãos. Instruiu esses mesmos irmãos a cantarem o cântico quando fossem pelo mundo e que o cantassem depois das pregações. Dizia que “Ao nascer do sol, deviam todos louvar a Deus por ter criado este astro, que durante o dia fornece luz aos nossos olhos; assim também, quando anoitece, todos deviam louvar a Deus por essa criatura, o nosso irmão fogo, que nos alumia os nossos olhos. Por isso nós devíamos, por estas e pelas outras criaturas que usamos todos os dias, louvar sempre o seu glorioso Criador”. Nos momentos em que estava mais atormentado pelas suas enfermidades, ele começava a entoar o cântico e pedia aos irmãos que prosseguissem. E assim foi até a hora da sua morte.

Essa capacidade de louvar o sol, a luz e as demais criaturas, mesmo sem poder contemplá-las, resulta da pacificação que foi sendo operada na vida de Francisco desde a sua conversão. Francisco é uma pessoa reconciliada com a sua própria humanidade, com os seus limites, com os seus medos. E porque há essa reconciliação interior, todas as demais criaturas são vistas como irmãs, fráteres, sorelas. Por isso Francisco pode cantar: amo irmã Clara, amo o irmão sol, amo o irmão fogo, amo o irmão verme. E foi dessa fraternidade ecológica que nasceu um dos mais belos escritos místico-ecológico do ocidente: o Cântico do Irmão Sol.

A versão que se segue é a do cantor e compositor Zé Vicente, que guarda a poesia e a estrutura do cântico original.

Onipotente e bom Senhor, a ti a honra, glória e louvor;
Todas as bênçãos de ti nos vêm e todo o povo te diz: Amém!

Louvado sejas nas criaturas, primeiro o sol lá nas alturas.
Clareia o dia, grande esplendor, radiante imagem de ti, Senhor.

Louvado sejas pela irmã lua, no céu criaste, é obra tua.
Pelas estrelas claras e belas Tu és a fonte do brilho delas.

Louvado sejas pelo irmão vento e pelas nuvens, o ar e o tempo,
E pela chuva que cai no chão nos dás sustento, Deus da Criação.

Louvado sejas, meu bom Senhor, pela irmã água e seu valor.
Preciosa e casta, humilde e boa, se corre, um canto a ti entoa.

Louvado sejas, ó meu Senhor, pelo irmão fogo e seu calor.
Clareia a noite, robusto e forte belo e alegre, bendita sorte.

Sejas louvado pela irmã terra, mãe que sustenta e nos governa
Produz os frutos, nos dá o pão com flores e ervas sorri o chão.

Louvado sejas, meu bom Senhor, pelas pessoas que em teu amor,
Perdoam e sofrem tribulação, felicidade em ti encontrarão.

Louvado sejas pela irmã morte que vem a todos, ao fraco e ao forte.
Feliz aquele que te amar, a morte eterna não o matará.

Bem-aventurado quem guarda a paz pois o Altíssimo o satisfaz.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

A liberdade da Alma

O texto é adaptado de um poema de John Muir

“Quero deixar minha alma livre, para que ela possa desfrutar de todos os dons que os espíritos possuem. Quando isto for possível, não tentarei conhecer as crateras da lua, nem seguir os raios de sol até sua fonte. Não procurarei entender a beleza da estrela, ou a desolação artificial do ser humano”.

“Quando souber como libertar minha alma, seguirei a aurora, e buscarei voltar com ela através do tempo. Quando souber libertar minha alma, mergulharei nas correntes que deságuam num oceano onde todas as águas se cruzam, e formam a alma do mundo”.

“Quando souber libertar minha alma, procurarei ler a esplêndida página da Criação desde o princípio”

Por Paulo Coelho

domingo, 7 de agosto de 2011

Romaria dos Mártires - Por D.Pedro Casaldáliga



Transcrição livre da mensagem de dom Pedro Casaldáliga ao final da celebração de 17 de julho de 2011, na Romaria dos Mártires da Caminhada, cidade de Ribeirão Cascalheira, MT, Prelazia de São Félix do Araguaia.


“Possivelmente seja essa, para mim, a última romaria pé no chão. A outra já seria contando estrelas no seio do Pai. De todo modo, seja a última seja a penúltima, eu quero dar uns conselhos. Velho caduco tem direito de dar conselhos... E a memória dos mártires, o sangue dos mártires, mais do que um conselho, [é] compromisso que conjuntamente assumimos, ou reassumimos. São Paulo, depois de tantos dogmas que anuncia, tantas brigas teológicas, tantas intrigas por cultura, dá um conselho único: ‘o que eu peço de vocês [é] que não esqueçam dos pobres; o que eu peço de vocês [é] que não esqueçam a opção pelos pobres, essencial ao Evangelho, à Igreja de Jesus’. A opção pelos pobres.

E esses pobres se concretizam nos povos indígenas, no povo negro, na mulher marginalizada, nos sem-terra, nos prisioneiros..., nos muitos filhos e filhas de Deus proibidos de viver com dignidade e com liberdade. Eu peço também para vocês que não esqueçam do sangue dos mártires. Tem gente, na própria Igreja, que acha que chega de falar de mártires. O dia que chegar de falar de mártires deveríamos apagar o Novo Testamento, fechar o rosto de Jesus. Assumam a Romaria dos Mártires, multipliquem a Romaria dos Mártires, sempre, recordemos bem, assumindo as causas dos mártires. Pelas causas pelas quais morreram, nós vamos dedicar, vamos doar, e se for preciso morrer, a nossa própria vida também...

E ainda uma palavra: há muita amargura, há muita decepção, há muito cansaço... Isso é heresia! Isso é pecado! Nós somos o povo da esperança, o povo da Páscoa. O outro mundo possível somos nós! A outra Igreja possível somos nós! Devemos fazer questão de vivermos todos cutucando, agitando, comprometendo. Como se cada um de nós fosse uma célula-mãe espalhando vida, provocando vida. A Igreja da libertação está viva ressuscitada porque é a Igreja de Jesus. A teologia da libertação, a espiritualidade da libertação, a liturgia da libertação, a vida eclesial da libertação não é nada de fora, é algo mui de dentro, do próprio mistério pascal, que é o mistério da vida de Jesus, que é o mistério das nossas vidas.

Para todos vocês, todas vocês, um abraço imenso, de muito carinho, de muita ternura, de um grito de esperança, esse cantar viva a esperança que seja uma razão... Podem nos tirar tudo, menos a via da esperança. Vamos repetir: ‘Podem nos tirar tudo, menos a via da esperança!’. Um grande abraço para vocês, para as suas comunidades, e a caminhada continua! Amém, Axé, Awere, Saúde, Aleluia!”


"QUERO ENTOAR UM CANTO NOVO DE ALEGRIA,
AO CHEGAR AQUELE DIA E PISAR O NOSSO CHÃO.
COM MEU POVO CELEBRAR A ALVORADA,
MINHA GENTE LIBERTADA, LUTAR NÃO FOI EM VÃO......:
...ARROZAIS FLORECERÃO E NA LUTA LIBERDADE COLHEREI!!!" (Dom Pedro casaldáliga)

terça-feira, 26 de julho de 2011

É lícito "desligar" os aparelhos de sobrevida?


A questão relativa ao ato de desligar os aparelhos que mantêm a vida de doentes terminais, especialmente nas Unidades de Terapia Intensiva dos hospitais é um assunto moralmente ainda muito discutível. Digo ainda discutívelporque o zeitgeist (espírito de época) que norteia nossa vida em sociedade hoje é muito elástico, atuando com casuísmos que tentam passar a idéia do "cada caso é um caso”.

A jovem americana Karen Ann Quinlan, tinha 22 anos de idade, quando em 15/04/75 entrou na emergência do Newton Memorial Hospital, de New Jersey/EUA, em estado de coma, em virtude de algum problema nunca esclarecido. Há quem diga tratar-se da ingestão de tranqüilizantes com bebida alcoólica. Depois de dez dias, a garota foi transferida para o Hospital St. Clair, em New Jersey. Lá, seus pais adotivos, Joseph e Julia Quinlan, tendo as informações da irreversibilidade do caso e após conversarem com seu diretor-espiritual, padre L. Trapasso, solicitaram, em 1o de agosto, a retirada do respirador. O médico assistente, após ter concordado com a solicitação no primeiro momento, se negou, posteriormente, alegando a ética profissional.

Inconformada, a família foi à justiça solicitar a autorização para suspender todas as medidas extraordinárias, alegando haver, por parte da paciente uma manifestação anterior, que não gostaria viver mantida por aparelhos. Em despacho em novembro de 1975, o juiz responsável pelo caso, não autorizou a retirada dos aparelhos, baseando a sua negativa no fato da impossibilidade de confirmar que a paciente tivesse dado aquela declaração.

A família apelou para a Suprema Corte de New Jersey, que designou o Comitê de Ética do Hospital St. Clair como responsável para estabelecer o prognóstico da paciente e assegurar que a mesma nunca seria capaz de retornar a um patamar aceitável de vida. O Comitê, que até então não existia, deu parecer de irreversibilidade. Em 31/03/76, a Suprema Corte de New Jersey concedeu, por sete votos a zero, o direito da família em solicitar o desligamento dos equipamentos de suporte extraordinários. Após isto, a paciente sobreviveu quase dez anos, sem o uso de respirador, mas sem qualquer melhora no seu estado neurológico.

Em 1995, ministrei, na cidade de Pelotas, RS, um curso intensivo (5 noites) de teologia sobre "escatologia” (vida após a morte). Num determinado momento do programa, para falar em após a morte, tivemos que definir a hora da morte, quando veio à baila o assunto morte encefálica (ME) e consequente desligamento de aparelhos. Uma religiosa, que trabalhava na UTI de um dos hospitais da cidade, relatou que, por conta de um acidente de carro, uma moça foi declarada em ME, sendo recomendado pelos médicos que lhe desligassem os aparelhos e depois dessem a notícia do falecimento à família. A irmã de caridade resistiu à ideia, e os aparelhos não foram desligados como fora adredemente solicitado. Para não se alongar, a religiosa perguntou: "Sabem onde está a moça hoje? É dentista, casada e tem dois filhos”. Nenhum dos médicos presentes se dispôs a contestar o depoimento da religiosa.

O homicídio involuntário (quando o agente não teve a intenção de praticar o ato danoso) não é moralmente imputável. Mesmo assim, não está isento de falta grave quem, de modo culposo (imperícia, imprudência ou negligência) agiu de maneira a provocar a morte, ainda que sem a intenção de causá-la. É indiscutível que as fronteiras biológicas estão sendo derrubadas, e por isto deve-se refletir sobre o papel do Direito na tentativa de evitar a utilização indiscriminada da ciência quando não ligada aos princípios éticos consensuais, oferecidos pela reflexão bioética. É imperioso buscar a proteção da vida humana e de suas características intrínsecas relacionadas à dignidade, inviolabilidade, e identidade do ser humano.

Antônio Mesquita Galvão
Doutor em Teologia Moral (Adital)

[O autor tem 112 livros editados, no Brasil e exterior, entre eles "Bioética. A ética a serviço da vida. Uma abordagem multidisciplinar”. Ed. Santuário, 2004].

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Carta Aberta - por Tomás Balduino (Goiás)




A paz do Senhor esteja com vocês!


Peço-lhes licença para colocar aqui umas reflexões que venho tendo com outros colegas, inclusive dando a forma de carta. Trata-se da concepção de igreja e, de modo especial, de igreja catedral. Fui motivado sobretudo pelo fato da catedral de Goiânia ter de se mudar para uma obra que ficará próxima do atual Paço municipal, em terreno doado por Lourival Lousa, dono do Flamboyant, porém do outro lado da rodovia 153, em local de acesso difícil e distante do povão. Será então uma catedral tipo monumento moderno, atualizado, tudo bem planejado, de concepção semelhante à de Brasília, a mesma que vai se reproduzir futuramente também em Palmas. Enquanto isso, por exemplo, as chamadas catedrais da Igreja Universal do Reino de Deus, que não deixam de ser também portentosas construções, ficam bem perto do povo e se enchem de gente. O que pensar, então, a respeito de nossas igrejas? Isso também faz parte da nossa responsabilidade pastoral.


1. O sacramento do Templo na Bíblia


O Senhor nos deu um ensinamento bem preciso e nos evangelizou sobre o templo. Enquanto as nações vizinhas do Povo de Israel tinham todas seu templo, os profetas do Senhor diziam que Deus não quer templo. Deus quer acampar com seu povo nômade. Construir um templo seria traição desse caminhar de Deus com seu povo. Até mesmo quando o rei Davi quis levantar um templo, o Senhor mandou o profeta Natan lhe dizer: “Desde que Deus tirou o seu povo do Egito, sempre morou em tenda e nunca pediu templo”. (2 Sm 7,7).


Segundo Isaías (Is 66,1), Deus é aquele que o universo inteiro não pode conter. Tem o céu por seu trono e a terra como escabelo de seus pés. Como pode morar em uma casa edificada pelo homem? O problema é que, de fato, desde o começo, até hoje, o templo tem servido de legitimação do poder dos reis e dos donos do poder. Não é, pois, de graça que o rei e os poderosos dão todo apoio econômico à sua construção suntuosa e em lugar privilegiado. Por isso, os profetas sempre criticaram o templo e pediram que a fé se libertasse e fosse para além do templo.

Alguns profetas, como Isaias e Jeremias, tiveram que assumir o templo como um fato consumado, mas tiraram partido dele como lugar do ensino da Palavra, não como lugar de sacrifício. E Jesus retomou esta tradição profética. Na hora da sua prisão declarou aos seus algozes: “Todos os dias eu ensinava no templo e não me prendestes”. (Mc 14,49). O templo, com efeito, não era tradicionalmente lugar de ensino, mas sim de sacrifício. Fazer daquele lugar um lugar de profecia foi um ato crítico e subversivo.

Depois do exílio da Babilônia, os judeus fiéis se reuniam em sinagogas (casas da comunidade). Começou, então, uma tensão entre o judaísmo da sinagoga (baseado na Palavra) e o judaísmo do templo (baseado nos sacrifícios e no culto). O Cristianismo surgiu no meio do judaísmo das sinagogas e não no do templo. As reuniões dos primeiros cristãos, que marcaram a liturgia até hoje, seguiram o esquema da sinagoga, não do templo. Das sinagogas para as casas. E, de casa em casa, o Evangelho foi irradiando.

Na cena da limpeza do templo o zelo vigoroso demonstrado por Jesus não foi em defesa daquela obra feita pela mão do homem. “Ele se referia ao templo do seu corpo” (Jo 2,21) e também à morada de Deus, isto é “àquele que o ama e cumpre sua palavra” (Jo 14,23) e sobretudo ao faminto, ao sedento, ao migrante, ao nu, ao doente, ao preso, às vítimas da opressão e da exploração. (Cf. Mt 23). Jesus se proclama maior do que o templo (Mt 12,6). Ele veio construir um templo não feito por mão humana (Mc 14,58). Ao celebrar sua oblação perfeita ao Pai Ele optou por fazê-la fora do templo e fora da cidade. O templo novo é o seu corpo ressuscitado (Jo 2,20). No Apocalipse, quando é anunciada a nova Jerusalém, o autor insiste que ela não tem mais templo porque o próprio Deus é o seu templo (Ap 21,22).


2. Templos e catedrais na história da Igreja


Há um paradoxo e uma contradição no fato dos judeus, para os quais o templo se tinha tornado o sacramento da presença divina, não terem querido reconstruir o templo depois de sua destruição no ano 70, enquanto os cristãos, que receberam tantas advertências de Jesus, multiplicaram os lugares de culto.

À medida que a Igreja se incorporou ao Império e se tornou uma Igreja Cristandade, ocupou os antigos templos pagãos e os transformou em templos da nova religião oficial que era a Igreja cristã. Da Idade Média até os nossos dias, as catedrais, construídas nas praças centrais e ao lado do poder político se tornaram símbolos de uma Igreja que o Concílio Vaticano II procurou superar. Segundo a Lúmen Gentium, “Assim como o Cristo consumou a obra da redenção na pobreza e na perseguição, assim a Igreja é chamada a seguir o mesmo caminho. Cristo foi enviado pelo Pai para ‘evangelizar os pobres, sanar os contritos de coração’ (Lc 4,18), semelhantemente a Igreja cerca de amor todos os afligidos pela fraqueza humana, reconhece mesmo nos pobres e sofredores a imagem do seu Fundador pobre e sofredor” (LG nº 8). Dom Hélder Câmara, por exemplo, fiel a este novo espírito, foi na direção da periferia. Escolheu “a igreja das fronteiras” e fez das comunidades de periferia o lugar da cátedra do pastor. Dom Paulo Evaristo Arns, em 1973, vendeu o palácio episcopal e com o dinheiro construiu inúmeros centros comunitários na periferia de São Paulo, onde as Comunidades Eclesiais de Base passaram a se reunir para círculos bíblicos, celebrações da Palavra e da vida e lutar pelos direitos humanos. Mesmo em plena Cristandade, pastores como João Crisóstomo, Basílio e, no Ocidente, Ambrósio e Agostinho insistem que o verdadeiro templo de Deus e a glória da Igreja são os pobres. E João Crisóstomo fazia os pobres sentarem em sua cátedra na Igreja de Constantinopla.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Festa pra quem crê no amor

Neste ano, no Brasil, enquanto o comércio e a sociedade recordam o "dia dos namorados”, Igrejas cristãs celebram neste próximo domingo, o último dos cinqüenta dias da festa da Páscoa (Pentecostes). Conforme a tradição cristã, neste dia, se espalhou pelo mundo o Espírito Divino. A comemoração do dia dos namorados é uma boa coincidência com esta festa pelo fato de que o Espírito se revelou como energia de amor.

Uma sociedade que reduz as pessoas a peças de produção e de consumo não compreende a linguagem do amor, porque faz as pessoas sobreviverem na competitividade e na luta meramente egoística. Por outro lado, quanto mais uma realidade é preciosa e rara, mais são frágeis as palavras para expressá-la. Hoje em dia, o próprio termo "amor” parece reduzido a emoções rápidas e a experiências passageiras. Poucos crêem no amor como princípio e luz de toda a vida. E se o amor não é reconhecido além dos confins do consumismo e do imediatismo comercial, as pessoas passam a viver meramente em função do dinheiro, da busca ansiosa de poder, ou simplesmente do culto de si mesmo. Em um contexto assim, até os crentes esquecem que Deus é Amor e se manifesta em nós e no universo, nos divinizando à medida que nos torna mais capazes de amar. Martin Buber, grande espiritual judeu, dizia: "Os sentimentos moram no ser humano, mas é a pessoa que mora no seu amor”. Quando se descobre e se vive isso, aí sim o amor é casa e estrada de vida, enraizamento e transcendência. É a única energia que conduz a vida à sua plenitude.

Camus dizia: "Não ser amado é uma falta de sorte, mas não amar chega a ser uma tragédia imensa”.

Conforme a Bíblia, toda pessoa que ama vive uma experiência divina porque Deus é fonte de todo amor humano. Mesmo no meio das imperfeições e buscas afetivas, o Amor divino conduz a pessoa a formas de amar mais profundas e generosas. Desde o começo da Bíblia, Deus prometeu estabelecer uma presença no mundo e guiar as pessoas que se abrissem à sua inspiração. Revelou-se presente na criação fazendo de cada criatura viva um sinal do seu amor e de sua bênção para o universo. Manifestou-se como fonte de bênção no canto dos pássaros, no vento que faz sussurrar as palmeiras, no riso das crianças e em cada pessoa aberta ao Espírito. Em tempos mais antigos, deu vários sinais de que queria fazer uma aliança de amor com a humanidade e com todos os seres vivos do universo. Revelou-se plenamente presente na pessoa de Jesus de Nazaré, testemunha da ternura divina para com toda a humanidade. De acordo com a fé cristã, a partir da ressurreição de Jesus, o Espírito Divino foi dado a todas as criaturas. Um cântico de Pentecostes afirma: "Ele enche o universo, abarca toda a sabedoria e abraça todo ser que existe”. O texto mais conhecido sobre Pentecostes (At 2) diz que, quando o Espírito vem dá às pessoas que o recebem a capacidade de se comunicar com as mais diversas culturas e criar uma unidade onde antes só havia divisão e discórdia. Hoje, o Espírito Divino guia comunidades e pessoas de todas as religiões e mesmo sem nenhuma pertença institucional a se unirem em função da paz do mundo, da justiça e da defesa da natureza. Um documento do século II de nossa era dizia: "Se queres encontrar o Espírito, podes descobri-lo presente e atuante no murmúrio do vento, no pulsar de toda a natureza e até quando levantas uma pedra”. O Espírito nos confirma sempre que cada ser vivo é sinal da bênção original do amor divino que fecunda o universo. Na Idade Média, Ibn Arabi, místico islamita, afirmava: "Meu coração é como um pasto para gazelas. Acolhe todas as crenças. É a tábua da lei judaica e, ao mesmo tempo, o Corão sagrado dos islamitas. Meu coração se faz Igreja para os cristãos e tenda aberta aos que buscam. Creio acima de tudo na religião do amor”.

Marcelo Barros
Monge beneditino e escritor
Adital
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