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quinta-feira, 17 de março de 2011

Morre Madre Maurina - Única freira torturada e exilada no regime militar


Madre Maurina Borges da Silveira (1926-2011), da Ordem Terceira de São Francisco, mineira de Perdizes, atuou no México, em Santa Catarina e em São Paulo. Foi torturada durante a ditadura militar no Brasil e morreu no último sábado (5 de março de 2011) em Araraquara, São Paulo, aos 87 anos, devido a falência múltipla dos órgãos.

Em outubro de 1969, a religiosa fora presa no Lar Santana, orfanato que ela cuidava em Ribeirão Preto, acusada de envolvimento com militantes das FALN (Forças Armadas de Libertação Nacional). No local onde atualmente funciona a Delegacia Seccional, madre Maurina foi torturada com choque elétrico por pelo menos duas horas seguidas. A irmã permaneceu um ano presa em São Paulo, até ser libertada do cárcere e levada para o exílio no México por força da ação revolucionária de um grupo guerrilheiro da VPR (Vanguarda Popular Revolucionária), que sequestrou o cônsul japonês em São Paulo, Nobuo Okuchi, trocando-o pela religiosa e outros presos políicos.

Dos seus torturadores, dois foram excomungados: os delegados Renato Ribeiro Soares e Miguel Lamano, ambos a serviço da então OBAN (Operação Bandeirantes). "Foi o arcebispo d. Felício da Cunha quem excomungou os dois, por causa das torturas contra presos políticos e das maldades feitas contra madre Maurina. Foi com o caso de Ribeirão que comecei a minha luta pela justiça social", declarou d. Paulo Evaristo Arns.

Numa entrevista de junho de 1998 ao Jornal do Comercio de Recife, Madre Maurina levanta suspeitas de que tenha sido vítima de vingança de famílias abastadas de Ribeirão Preto:
"Agora, tem uma coisa que eu nunca disse a ninguém. É sobre os ricos de Ribeirão Preto. No Lar Santana, orfanato que eu dirigia, tinha muita criança filha de mãe solteira e rica, o que era um escândalo social para a época (1969). Então, as crianças ficavam lá, mas o lugar era para os pobres. Eram cerca de cem crianças, e pelo menos 15 eram filhas de mães solteiras e ricas. Elas estavam tomando o lugar de outras, pobres, que precisavam de fato ficar no orfanato Lar Santana. As famílias davam cheques para nós e tudo o mais, mas o correto era que as crianças vivessem em suas casas. O que eu fiz? Devolvi as 15 crianças. Fui à casa de cada uma delas e as devolvi. E eram mansões, casas enormes. Eu dizia para as famílias: 'O orfanato é lugar de criança necessitada que precisa de um lugar para viver, que não tem pai nem mãe'. Acho que isso acabou influenciando de algum jeito no que me ocorreu depois. Não sei quem eram as famílias, mas isso deve ter tido ligação com a minha prisão."

Transcrevo a seguir o depoimento de uma companheira de cárcere da irmã Maurina.
Rose Nogueira



Madre Maurina era clarinha, tão branquinha e sua pele tão rosada que, mesmo naquela situação, a gente prestava atenção.

Ocupei sua cela, a 4 do Fundão do corredor do Dops. Levaram-na para o presídio Tiradentes naquele mesmo dia para que a cela fosse ocupada por mim, pela Ana Vilma Penafiel e por Tiana, uma professora que gritava ter sido presa por engano. À noite trouxeram Makiko Kishi, presa por ter fotografado o grande Carlos Marighella logo depois de ter sido assassinado pelo Esquadrão da Morte.
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