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domingo, 11 de setembro de 2011

Pela Vida grita a Terra

O ativista Mahatma Gandhi contou que, certa vez, um pensador indiano fez a seguinte pergunta aos seus discípulos: "Porque é que as pessoas gritam quando estão aborrecidas?" Ao que um deles respondeu: "Gritamos porque perdemos a calma". O pensador, não satisfeito, perguntou novamente: "Mas, por que gritar quando a outra pessoa está ao seu lado?" Nova resposta veio de outro seguidor: “Bem, gritamos porque desejamos que a outra pessoa nos ouça".

            Após várias indagações, o mestre esclareceu que quando duas pessoas estão aborrecidas, significa que seus corações afastam-se muito. Para diminuir esta distância é preciso gritar para poderem escutar-se mutuamente. Quanto maior o aborrecimento, maior será o grito, o que não ocorre quando duas pessoas se amam, pois estas se falam suavemente.

            A sabedoria indiana nos ajuda a compreender a realidade em que vive o povo brasileiro. De fato, há uma distância muito grande entre os que estão à frente da administração pública e a grande maioria de brasileiros e brasileiras. Se assim não fosse, certamente não precisaria gritar!

            É por isso, por esta distância irresponsável e perversa, que saímos às ruas no dia em que se celebra a “independência” de nosso país. Sabemos que a verdadeira independência não é esta que está aí, com grandes grupos econômicos solapando os bens da nação, com o agronegócio destruidor degradando o pouco que existe de nossas florestas, da Mata Atlântica, do Cerrado, da Amazônia, para plantar soja transgênica, cana-de-açúcar ou para encher as terras de gado e deixar milhares de famílias de pequenos agricultores e indígenas acampadas nas margens das rodovias.
           
        Independência, hoje, rima com protagonismo do povo, com autonomia, com políticas públicas que atendam aos anseios da população empobrecida; com a garantia dos direitos da classe trabalhadora e respeito aos diferentes povos; com trabalho para todos, educação e saúde de qualidade, moradia, alimentação, segurança e acesso aos bens culturais.

            Em São Paulo, há 14 anos, o dia 07 de setembro é marcado por manifestações sociais, em sintonia com o movimento nacional do Grito dos Excluídos que teve início em 1995, com o lema “A Vida em Primeiro Lugar”.



 Neste ano, a mobilização ganhou o lema “Pela vida grita a terra, por direitos, todos nós”. A terra também está gritando, dando sinais de que a distância que nos separa de sua “cidadania” é quilométrica. Precisamos, sim, nos aproximar de seu clamor e exercitar a prática do cuidado, da reverência com todas as criaturas.

E ninguém melhor que os povos indígenas para nos ajudar nesta tarefa de nos reaproximar da mãe Terra! Por isso, estavam lá, na Praça da Sé, lideranças do povo Pankararé de Osasco, na Grande São Paulo, para também dar o seu “grito” por justiça, por dignidade e por reconhecimento.





Alaíde Pankararé resumiu o clamor do grupo: “Gritamos porque queremos ter o direito de viver como indígenas e sermos reconhecidos como tal. Queremos espaço para nossas atividades culturais, moradia, saúde e educação”.

Suas danças e seu canto trouxeram presente a memória dos ancestrais que derramaram seu sangue para que seu povo tivesse terra. Hoje, vivendo na cidade, este canto se atualiza nas lutas pela não discriminação e pela garantia de seus direitos. O povo todo, ali reunido, acompanhou e sintonizou com o grito de tantos outros povos que sofrem, mas que lutam com esperança e ousadia.

Na caminhada para o Ipiranga outras vozes se fizeram ouvir, trazendo presente outros tantos clamores: sindicalistas e estudantes, movimentos e pastorais sociais, dentre eles, o Conselho Indigenista Missionário (Cimi), a Comissão Pastoral da Terra (CPT), a Pastoral da Juventude (PJ), a Pastoral do Povo de Rua, a Pastoral Operária e a Assembleia Popular.

O “grito” continua ressoando nas praças e ruas de todo país. Oxalá, os ouvidos “distanciados” e alienados do poder público se abram às vozes do povo que clama por justiça e cidadania.

Beatriz Catarina Maestri, catequista franciscana e missionária do Cimi SP

O Grito dos Excluídos - o que é


O Grito dos Excluídos é uma manifestação popular que surgiu a partir do desejo das Pastorais Sociais de trabalharem cada vez mais articuladas, a fim de atuar mais eficazmente diante da situação de exclusão social crescente no Brasil. Esta preocupação foi levantada após a Segunda Semana Social Brasileira, em 1994. O evento soma-se à Romaria dos Trabalhadores, que já vinha acontecendo em Aparecida-SP desde 1987. Articulado com a ação pastoral da Igreja no Brasil, ele retoma e aprofunda o tema da Campanha da Fraternidade, realizada anualmente durante a Quaresma.

Quando acontece?
Esta manifestação acontece no dia 07 de setembro, dia da Pátria, quando o Brasil comemora oficialmente sua independência de Portugal. A data tem razão de ser porque as pastorais sociais e os movimentos populares, em geral, entendem que o Brasil ainda não é uma país independente, no verdadeiro sentido da palavra. Independência para nós significa trabalho para todos, educação e saúde de qualidade, moradia, alimentação, acesso aos bens culturais. O País só será independente quando todos os cidadãos tiverem os direitos respeitados e as suas necessidades básicas atendidas.


Histórico
O primeiro Grito dos Excluídos, realizado em 1995, teve como lema “A Vida em Primeiro Lugar.” Aconteceu em cerca de 180 cidades. Realizado de forma descentralizada, suscitou boa participação e muita criatividade. Foi expressão da voz dos excluídos, criou laços de solidariedade e fortaleceu a esperança. Além disto, denunciou a concentração da terra e da renda, a política que gera o desemprego, a corrupção e a política neoliberal. Entre outras coisas, reivindicava a democratização da propriedade e do uso da terra, a distribuição da riqueza, da renda e um projeto de sociedade construído com ampla participação popular.

O segundo Grito dos Excluídos foi realizado no dia 07 de setembro de 1996, em mais de 300 cidades. Em Aparecida- SP, juntamente com a Romaria dos Trabalhadores, reuniu mais de 80 mil pessoas. Tendo como lema “Trabalho e Terra Para Viver”, quis ser um ato de fé no Deus da Vida, um grito profético por justiça e paz, denúncia contra o desemprego estrutural, além de buscar saídas para a situação de exclusão social e criar laços de solidariedade e fortalecer a luta e a esperança. Denunciou o processo de globalização que agravava a concentração, a posição das elites que vêem o desemprego estrutural como um “mal necessário”, o sacrifício de vidas humanas para salvar planos econômicos, a falta de uma política agrícola e a degradação do meio-ambiente.

O Grito dos Excluídos de 1997, com o lema “Queremos Justiça e Dignidade”, vai denunciar os abusos do sistema carcerário, a violência policial e o poder Judiciário, e ainda clamar contra a injustiça, pelos direitos dos presos, pela reforma agrária, pela demarcação das terras indígenas e contra o modelo de desenvolvimento econômico que gera desemprego.

É importante destacar, neste processo, a ampliação das parcerias. Se os Gritos de 95 e 96 foram coordenados somente pelas pastorais sociais em colaboração com outras entidades, o de 1997 deu um passo importante para consolidar as parcerias. Além das dez pastorais sociais e dos três organismos que compõem o Setor Pastoral Social da CNBB, fazem parte da coordenação nacional o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, a Central Única dos Trabalhadores e a Central dos Movimentos Populares e outros. Nas diferentes regiões e municípios as parcerias se diversificaram ainda mais, articulando várias Igrejas cristãs, organizações não governamentais, movimentos sindicais e populares significativos.

Por: Dora Santana

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

O "Grito" por todo país

"O grito", de Munch
O 17º Grito dos Excluídos mobilizou manifestantes em todo o país por justiça social e garantia de direitos. Com o lema Pela Vida Grita a Terra. Por direitos, todos Nós, os protestos tiveram como alvo os escândalos de corrupção, os mega projetos na Amazônia, as mudanças no Código Florestal e até as obras para a Copa do Mundo de 2014.

Fui levada por analogia á Noruega de 1893 quando Munch pinta "o grito" . Com demarcação de profunda angústia e desespero existencial, a figura desnivelada pelo som demostra a propagação das ondas sonoras. Assim o "Grito Nosso - dos excluídos" também vai em busca dos ouvidos atentos para abarcar os problemas sociais que mais nos comove. Esperamos que ele atinja a todos,principalmente os que podem engrandecer as políticas públicas do nosso país. Que não ocorra como no quadro de Munch (que aquelas duas pessoas atrás do que grita,não estão distorcidos porque não se abalaram com o grito), mas que o coração dos brasileiros seja tocado pelas questões sociais mais urgentes de serem mudadas.

– Dependendo da região e da cidade, os movimentos focam em algum direito ligado àquela realidade. Sempre em defesa do direito de participar, de ajudar a decidir, e questionando o modelo de desenvolvimento que gera exclusão – explicou Rosilene Wanseto, da coordenação nacional do Grito dos Excluídos.

Em Brasília, os manifestantes contra a Corrupção, movimento apartidário convocado pelas redes sociais na internet para protestar contra os episódios de desvio de dinheiro público nos ministérios dos Transportes, Turismo e Agricultura, além da absolvição da deputada Jaqueline Roriz (PMN-DF), flagrada recebendo dinheiro do esquema de corrupção do governo do Distrito Federal, conhecido como mensalão do DEM.

Brasília - DF

Nas 12 cidades-sede da Copa do Mundo, os manifestantes irão questionar remoções e despejos feitos para dar lugar às obras de estádios e mobilidade urbana para o Mundial de 2014.

Belo Horizonte - MG
Rio de Janeiro - RJ 
Fortaleza - CE

































Também estão na pauta das manifestações populares o uso de agrotóxicos, a criminalização e a violência contra a juventude, a tentativa de flexibilização do Código Florestal no Congresso, a construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte e a reforma política.



Em João Pessoa, o Grito dos excluídos levou às ruas mais de 2 mil pessoas, que se mobilizaram desde a tarde passada. Este ano movimentos sociais do campo e da cidade, pastorais sociais e diversas organizações populares saíram às ruas e a concentração ocorreu no Parque Solon de Lucena (lagoa), nas proximidades do no Cassino da Lagoa.
João Pessoa - PB


O manifesto do Grito está dividido em seis temas específicos que foram discutidos e elaborados pelos movimentos sociais organizadores do ato. São eles: Meio Ambiente, Trabalho, Políticas Públicas, Combate a criminalização da Juventude e dos Movimentos Sociais, Direitos das Mulheres e do Movimento LGBT, e o eixo Memória Mística e Utopia.

O Grito do Excluídos surgiu em 1995, ligado à Campanha da Fraternidade daquele ano. Criado pelo Setor Pastoral Social da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), a mobilização ganhou adesão de outras entidades e movimentos sociais aos longo dos anos.

Parte do texto: Correio do Brasil

17º Grito dos (as) Excluídos (as)


O Grito dos (as) Excluídos (as) chega a sua décima sétima edição com realização massiva – neste dia 7 de Setembro, data simbólica da Independência do Brasil. Consolidado como principal espaço de concentração, mobilização e afirmação dos movimentos sociais e suas demandas.

 O Grito deste ano tem como tema Pela Vida grita a terra...Por direitos todos nós!.Com este tema, o ato reforça a participação do povo que, através de suas inquietações e denúncias, se torna sujeito de transformações e de mudanças nas mais diferentes realidades brasileiras. Segundo Luis Bassegio, coordenador do Grito dos Excluídos Continental, a iniciativa do evento já está inserido no calendário popular. "[O Grito] tem se tornado um espaço de manifestação do povo que não tinha onde levantar a voz e encontrou nesse dia uma oportunidade para se manifestar”, disse.

 Contra as altas taxas de energia; pelo direito à moradia digna; pela participação cidadã no processo da Copa Mundial de 2014; contra o desemprego; pelo respeito às mulheres, aos povos indígenas, às crianças e adolescentes; contra os grandes projetos governamentais que afetam comunidades inteiras...Os motivos que levarão milhares de brasileiros e brasileiras às ruas amanhã (7) são muitos.

 Bassegio acredita que, ao longo desses dezessete anos, o Grito dos (as) Excluídos (as) se tornou um espaço de referência agendado do movimento popular, e relembra a trajetória da mobilização, que surgiu a partir do questionamento sobre o Dia da Independência e do apelo do povo pobre que não tinha espaço para manifestar suas dores.

 "É lá que a população faz suas reivindicações, e esse ano o sentido é diferente porque o Grito dará voz não só ao movimento, mas à Mãe Terra que geme em dores de parto”, acrescentou.

 A questão da vida no planeta, um dos temas em evidência nas lutas sociais de hoje, se somam a outras lutas e conquistas que o Grito tem alcançado ao longo de sua jornada. "Isso demonstra que o Grito não acontece somente na Semana da Pátria ou no próprio dia 7 de setembro, mas ao longo de todo ano. Está concentrado nas lutas locais e cotidianas dos e das militantes que lutam contra os megaeventos, despejos, agronegócio, baixo salário”, apontou Bassegio.

 Dentre as outras questões levantadas pelo Grito estão a desigualdade e a má distribuição de renda, problemáticas que têm sido grandes geradores da exclusão em que vive o povo brasileiro. Segundo o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE), o atual salário mínimo deveria ser de R$ 2.149,76 para atender as necessidades básicas de uma família de quatro pessoas, conforme prescreve o art. 7 da Constituição. O atual salário mínimo no Brasil é de R$ 545,00, possui, hoje, metade do valor de compra de quando foi criado, em 1940.

 Dentre as lutas alcançadas pelos movimentos, Bassegio destaca o acesso à aposentadoria, resistência das comunidades às obras da Copa de 2014, para citar apenas algumas. Ainda muito há de ser feito. "Questões como código florestal, a Usina hidrelétrica de Belo Monte, no Pará região Norte, reforma agrária ainda estão na pauta dos grandes desafios do movimento”, relatou. 

 As mobilizações contam com apoio e promoção do Setor de Pastoral Social da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), Comissão Pastoral da Terra, Conselho Nacional de Igrejas Cristãs no Brasil (Conic), além de diversos movimentos e instituições, que lutam pela igualdade, justiça e a vida.
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