quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Celebração do dia de Santa Clara

CONGREGAÇÃO DAS IRMÃS CATEQUISTAS FRANCISCANAS
CNPJ/CMF 82.602.533/0004-50
PROVÍNCIA SANTA CLARA DE ASSIS
                   
                                                                                                                      


Sugestão para o ambiente: frase - “Não quis sair pela porta costumeira, mas foi por uma outra saída”; símbolos das portas alternativas, das outras saídas que o povo vai encontrando...

1.    Canto: Há 800 anos atrás, uma jovem pelos pobres optou. Seguindo a Cristo humilde e pobre. Amando aqueles que o mundo não amou (bis)
  São Claras negras, são Claras brancas, são Claras índias
  São Claras hoje, com rosto de mulher, latino-americana (bis)

2. Hoje, são tantas Claras que sonham e lutam por um mundo de igualdade
    São índias, negras, brancas  que fazem gerar no seu ventre a fraternidade (bis)

Introdução: Celebramos Santa Clara com o mundo que celebra 800 anos de brilho da luz clariana, que trouxe luz nova para a sociedade, para a igreja, para a VRC. O testemunho de Clara irradiou e derramou-se sobre Assis, atravessou fronteiras e falou aos corações. Sua luz continua iluminando, sua vida continua inspirando, seu projeto continua atraindo.

Todas: Clara – claridade, clarão de novidade! Clareia nossas buscas de cósmica irmandade!

Leitora: Lua brilhante em densa noite / alumias caminhos novo/
   do palácio e catedral / sais pra junto do leproso!

Todas: Clara – claridade, clarão de novidade! Clareia nossas buscas de cósmica irmandade!

Leitora: A Igreja enclausurada, e a sociedade em ebulição,
    não têm lugar para o pobre,/ que abrigas no coração!

Todas: Clara – claridade, clarão de novidade! Clareia nossas buscas de cósmica irmandade!

Leitora: Da pobreza queres o privilégio / a irmandade vives sem rodeios /
   Deus revela à menor / o melhor de seus anseios!

Todas: Clara – claridade, clarão de novidade! Clareia nossas buscas de cósmica irmandade!

Leitora: Clara vê, andam no escuro, igreja e mundo hoje ainda,
   reconduze ao evangelho, com a luz de tua vida!

Todas: Clara – claridade, clarão de novidade!  Clareia nossas buscas de cósmica irmandade!

CANTO: Me mostra teu espelho Clara, irmã, preciso desta imagem cristalina
     Me ensina a cultivar hoje e amanhã, ternura paz e bem em cada esquina.

OLHAMOS NO ESPELHO DA VIDA DE CLARA

Animadora: Em toda sua vida, Clara foi tecendo um projeto alternativo. Desde a juventude, à vivência em São Damião, apresentou às mulheres uma alternativa de vida cristã e atraiu a muitas para a louca aventura de viver o Evangelho.

O contexto de Clara de Assis - Parte 3

Da nobreza a São Damião: itinerário e proposta de Clara de Assis.

3ª Parte

                                               Nova forma de vida

O nome “Irmãs Pobres”, escolhido por Clara para designar o grupo, indica que o eixo central de sua forma de vida está justamente na pobreza e na irmandade.

Pobreza

A pobreza é bem concreta, não é idealizada. Com a recusa à posse de bens rentáveis, as Damianitas compartilham a sorte dos menos favorecidos, aqueles que nem mesmo nas comunas livres eram contados como cidadãos e cidadãs. Mas essa mesma opção se desdobra em outros aspectos, no modo de viver e nas relações de trabalho.
A casa é simples, as vestes são rústicas, os alimentos apenas suficientes. As Damianitas trabalham com as próprias mãos para se manter. Mas não seguem os critérios econômicos da época, não vendem nem acumulam o fruto do trabalho. Não são as servas da sociedade feudal, nem as operárias da nascente indústria. Possuem os instrumentos de trabalho, mas ninguém faz o papel do patrão. Todas trabalham, inclusive a abadessa, “com fidelidade e devoção”. A fidelidade indica o compromisso e o senso de responsabilidade com que o trabalho deve ser feito; a devoção indica o espírito, as motivações que o acompanham. O sistema é democrático: decidem em capítulo o trabalho que compete a cada uma (RSC 7,1-3). Quando é necessário, completam o sustento com esmolas, como fazem os pobres.

Irmandade

A irmandade é cultivada com sabedoria, persistência e realismo e tem várias dimensões: entre aquelas que assumiram o mesmo projeto de vida; com os Frades Menores; na comunidade eclesial; com todas as criaturas.
Irmandade em São Damião. Todas são igualmente irmãs, sem distinção de classe social, idade ou serviço assumido. O amor deve ser concreto, demonstrado com atitudes e obras (Test 59-60; RSC 10,6-7). Pede-se atenção especial às doentes, frágeis e aflitas (RSC 3, 10; 4,11-12; 8,12-14).
Mas Clara sabe que não bastam exortações e bons propósitos para que a irmandade aconteça. Por isso, organiza de forma democrática a convivência: estabelece o capítulo semanal, onde são tomadas as principais decisões; cria o conselho das discretas, para que a abadessa não governe sozinha; prescreve a participação de todas na eleição para os diferentes serviços (RSC 4,15-18.22-24).
Clara sabe também que a unidade no mesmo projeto de vida não faz desaparecer as diferenças e desejos individuais, e não tem força suficiente para eliminar a fragilidade humana. Por isso, é necessário cultivar alguns gestos e atitudes, para que as tensões e conflitos não resultem em destruição, mas ajudem no crescimento da irmandade. Cada uma deve manifestar à outra, com simplicidade e sem medo, suas necessidades; todas, inclusive a abadessa, são convidadas a praticar a correção mútua com caridade, pedir perdão com humildade e concedê-lo com misericórdia; as que servem fora do mosteiro não devem espalhar o que acontece em casa, nem trazer para casa boatos que não edificam (RSC 4,15-16; 9,6-10.15-16).

O contexto de Clara de Assis - Parte 2

Da nobreza a São Damião: itinerário e proposta de Clara de Assis.

2ª Parte

A opção de Clara

A vocação de Clara nasceu no seio da família como fruto de um processo de busca bem cultivado. A família de Clara levava uma vida cristã “exemplar”, segundo os critérios da época. Apoiava a Igreja em suas ações e participava dos atos litúrgicos. A mãe Hortolana socorria os pobres e fazia longas peregrinações. Também Clara estendia a mão com prazer para os pobres (LSC 3).
Seguindo a tradição, a família pensava em casar Clara segundo a sua nobreza, magnificamente, com homens grandes e poderosos (PC 19,2), para ampliar e consolidar alianças familiares. Mas a jovem tinha outros projetos. Já conhecia o movimento dos penitentes, e ao ouvir que Francisco tinha escolhido o caminho da pobreza propôs em seu coração também ela fazer a mesma coisa (PC 20,6).


Clara saiu de casa aos 18 anos, no Domingo de Ramos de 1212. A Legenda diz que ela não saiu pela porta habitual, mas abriu com as próprias mãos uma porta não costumeira, fechada com pesados troncos e pedras. (LSC 7; PC 13,1). Esse fato tem um profundo sentido simbólico. O que essa jovem estava fazendo era algo novo na Igreja, e não habitual para as mulheres da nobreza.
Para o autor da Legenda, a vida de Clara dali para frente é uma grande celebração da “Semana Santa”, rumo à Páscoa definitiva. A primeira etapa, até chegar a São Damião, é bastante longa e cheia de obstáculos. A família sentiu-se humilhada e reagiu com violência não só pela fuga, mas pelas condições de Clara em São Paulo das Abadessas. Ela tinha vendido seu dote e foi acolhida como serva no rico mosteiro. Era necessário tirá-la à força daquela baixeza, indigna de sua linhagem e sem precedentes na região (LSC 8-9).
Nesse primeiro momento, o aspecto não costumeiro mais evidente é a ruptura com a classe social da nobreza e com seus privilégios, para viver a condição dos pobres, sem bens e sem os direitos de cidadania previstos na recente organização comunal. Mas na medida em que Clara e suas irmãs foram tornando concreta essa opção, outros aspectos se tornaram relevantes e deram corpo ao projeto de vida da nova comunidade.

Para refletir: O que é mais significativo na opção de Clara? Que rupturas são necessárias, hoje, para quem se propõe seguir Jesus Cristo pobre e crucificado?


São Damião como alternativa

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

O contexto de Clara de Assis - Parte 1


Da nobreza a São Damião: itinerário e proposta de Clara de Assis.

1ª Parte

   Época de grandes mudanças

O tempo de Clara de Assis é um dos períodos mais dinâmicos da história do Ocidente, marcado por grandes e decisivas mudanças: comunas livres e associações, cidades e comércio, cruzadas e peregrinações, catedrais e universidades...
No sistema feudal, que chega a seu apogeu no século XII, havia três classes bem distintas: os nobres, os trabalhadores e o clero. Era uma sociedade estável e rigidamente hierarquizada. Os trabalhadores eram vassalos e dependiam de suseranos. Mas cada suserano era vassalo de outro mais acima dele, até chegar ao topo onde estava o rei ou imperador.


Mas é justamente neste século que aparecem outras forças e colocam em cheque o modelo feudal. Ressurgem as cidades, principalmente devido ao êxodo rural e ao grande impulso comercial e artesanal. Elas deixam de ser simples centros militares e administrativos para se tornar centros econômicos, políticos e culturais.
Nas cidades, artesãos e comerciantes formam a base de uma nova classe, a classe burguesa, que procura espaço, cresce em poder e reivindica mais liberdade. Já não é possível aceitar a estrutura feudal, que dificulta os deslocamentos e o intercâmbio comercial.
O movimento comunal busca uma organização mais horizontal da sociedade, rejeitando a rígida forma hierárquica. O espírito é associativo e está presente também nas muitas agremiações e confrarias de artesãos e comerciantes.
Com o desenvolvimento econômico, cresce também a mentalidade do lucro e a injustiça social ganha novas formas. Aumenta muito o número de pobres e a pobreza assume outras características. Até aquele momento, os pobres eram aqueles que não tinham defesa diante dos poderosos. Agora, os pobres são aqueles que não conseguem o próprio sustento, que não conseguem ou não podem trabalhar. O uso generalizado do dinheiro cria um novo tipo de relação social e os pobres tornam-se pessoas anônimas, banidas do convívio humano e sem nenhum direito na nova sociedade comunal.
Outra característica deste período é a grande mobilidade humana: cavaleiros partem para as cruzadas; camponeses deslocam-se para as cidades; estudantes buscam escolas e mestres; bispos e abades visitam Roma ou vão participar de concílios; homens e mulheres de todos os meios sociais fazem longas peregrinações...
É um tempo também de muitos conflitos. No processo de implantação da comuna livre, Assis enfrenta lutas entre o poder imperial e o papado, lutas internas entre os maiores (nobres) e os menores (trabalhadores), confronto com os senhores feudais circunvizinhos, e guerras contra as cidades mais próximas, especialmente Perugia, sua maior rival. Além disso, há também muitas rixas entre pessoas, famílias e grupos sociais, com frequência resolvidas na base da espada. Sem esquecer que a Europa dos cristãos está organizando cruzadas para retomar espaços conquistados pelos árabes muçulmanos.
A Igreja desse período está bem adaptada ao modelo feudal. É poderosa e luta para manter seu poder. O clero tem pouca formação e não se preocupa com a pregação do Evangelho. A vida monástica, depois de alguns momentos de renovação, volta a se acomodar ao antigo modelo.
Por isso, em princípio, a Igreja reagiu de forma negativa diante das mudanças que estavam ocorrendo. Era preciso salvar a “tradição”, que incluía estruturas de poder, terras, organização estável. Para a teologia e a espiritualidade monástica, o mundo tinha se tornado ainda mais perigoso e era necessário desprezá-lo com maior firmeza. O desenvolvimento urbano foi visto como consequência do pecado e as cidades como refúgio para desclassificados e marginais.
Mas não faltou quem sentisse o desafio de viver a própria fé no meio desse mundo em mudança. Não faltou quem abrisse novos caminhos com a sabedoria e a coragem de quem se deixa guiar pelo Espírito de Deus.

Despertar evangélico

Desde os tempos primitivos, o ideal de vida cristã expressou-se em duas linhas distintas: aquela inspirada na comunidade primitiva de Jerusalém, onde tudo era colocado em comum, e aquela inspirada no exemplo do próprio Jesus que andava de cidade em cidade pregando o Reino de Deus, sem ter onde reclinar a cabeça. O mesmo Jesus que chamou discípulos e os enviou em missão.


Depois que o cristianismo tornou-se religião oficial do Império Romano, esse ideal cristão foi assumido pela Vida Religiosa. Os monges buscaram inspiração na comunidade de Jerusalém; os eremitas seguiram a forma do Jesus itinerante com seus discípulos. Mas o modelo monástico sempre foi predominante.
A partir do século XI, os eremitas ressurgem e lideram um intenso movimento laical. Não é mais a vida religiosa tradicional monástica, mas é um novo jeito de viver o Evangelho. A vida monástica, em alguns momentos, tinha conseguido uma boa renovação, mas o novo não surge no seu interior. Nasce do lado de forma, por outros caminhos.
As mulheres tiveram participação intensa nesse movimento, principalmente através das Beguinas. Eram “mulheres religiosas” que não assumiam uma regra determinada, mas apenas um “propósito de vida”. Formavam comunidades e dedicavam-se à oração, ao trabalho manual e a obras de assistência. Na Bélgica, habitavam pequenas casas, formando uma espécie de vila fechada. Tinham em comum a igreja e os locais de refeição e trabalho. Na Itália e Alemanha, formavam comunidades junto a igrejas, hospitais, hospedarias ou abrigos.
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